terça-feira, 27 de setembro de 2011

Xintoísmo: Sua doutrina, vida religiosa e teologia

Por Carlos Chagas

Atenção: Este artigo é uma cópia literal de um trecho do livro chamado "O livro das Religiões" de Gaarder, Notaker e Hellern exceto pelas figuras. Os méritos são dos autores.

No Japão, a antiga religião nacional é o xintoísmo. A partir de 500 D. C, o xintoísmo enfrentou dura competição com o budismo, e as duas religiões acabaram por influenciar uma à outra. Não é raro, no Japão, o uso alternado de várias religiões. Uma criança pode ser abençoada pelos deuses num ritual xintoísta e ser enterrada num ritual budista. O casamento pode se realizar numa igreja cristã. Essa mistura de religiões encontrou expressão modernamente numa série de novas seitas, cultos e comunidades religiosas, o que levou o Japão moderno a ser chamado de laboratório religioso.
Características do xintoísmo

Diferentemente do cristianismo e do islã, o xintoísmo não tem um fundador. É tipicamente uma religião nacional, que ao longo dos séculos adotou tradições de várias outras religiosidades. Ela não conta com nenhum credo ou código de ética expressamente formulado. A essência do xintoísmo são a cerimônia e o ritual, que mantêm o contato com o divino.

Costuma-se dizer que o xintoísmo possui diversos milhões de deuses, ou kamis, que se manifestam sob a forma de árvores, montanhas, rios, animais e seres humanos. Só que a palavra japonesa kami
também pode ser traduzida como "espírito". O culto aos espíritos naturais e ancestrais sempre foi fundamental para o xintoísmo, desde os dias em que o Japão ainda era uma sociedade agrária. O culto aos antepassados se difundiu particularmente sob a influência do confucionismo chinês.

Origem divina dos japoneses

No princípio, segundo a mitologia japonesa, um casal divino, Izanaguie Izanami, desceu do céu e gerou as ilhas japonesas, depois o resto do mundo e tudo o que há nele, e por último uma série de
deuses, os kamis. Destes, o mais importante era a deusa do sol, Amaterasu. Os outros kamis se estabeleceram na terra e conceberam os primeiros seres humanos. Mas a sociedade humana precisava de ordem e comando, e por isso o neto de Amaterasu foi enviado à terra. Um de seus descendentes se tornou o primeiro imperador do Japão. Assim, todos os japoneses têm origem divina, mas em especial o imperador, que é descendente da própria deusa do sol.

Religião estatal e culto imperial

Aos poucos foi ocorrendo uma mudança: em vez de adorar os kamis do falecido imperador, passou-se a adorar o próprio imperador. Ele era um kami vivo.

A origem do culto ao imperador se explica, em parte, pelas condições políticas do século passado. O Japão estava ameaçado pelo expansionismo ocidental e sentiu necessidade de reforçar no povo o caráter nacional. Ao mesmo tempo, a autoridade do imperador tinha sido solapada por líderes militares, os xoguns, que detinham o poder.

Em 1867, um golpe de Estado deu ao imperador Meiji o controle do país; ele iniciou então uma renovação política e religiosa. O xintoísmo se tornou a religião estatal, ao passo que templos budistas foram derrubados e vários elementos budistas foram expurgados da cultura xintoísta.

Retratos do imperador foram pendurados em todos os edifícios oficiais, nas escolas e nas fábricas, e as pessoas tinham de se curvar respeitosamente diante deles.

Juntamente com o culto ao imperador veio à tona um forte nacionalismo. Essa foi a base para o crescente expansionismo japonês, que culminou na Segunda Guerra Mundial, quando o Japão se alinhou com a Alemanha.

A religião ficou então totalmente vinculada ao nacionalismo. Um exemplo: o xintoísmo era a ideologia dos pilotos suicidas japoneses(kamikaze quer dizer "vento divino").

Cada soldado que morria na guerra era imediatamente transformado num kami, e em sua honra se realizavam cerimônias nos templos xintoístas.

Após a derrota do Japão na guerra, em agosto de 1945, o imperador fez uma declaração renunciando a sua condição divina. O xintoísmo deixou de ser religião estatal; porém, o xintoísmo popular, que sempre havia coexistido com o culto imperial, sobreviveu e passou a experimentar um certo reavivamento.

O culto é observado tanto no lar como nos templos, dos quais há cerca de 20 mil. Antes administrados pelo governo imperial, os templos são hoje organizados em associações, com líderes eleitos pelo voto.

O Templo: Morada dos kamis

O templo xintoísta não é um local para pregações. E a morada de um kami, o lugar onde este é cultuado segundo certos rituais prescritos.

No santuário interno do templo há um objeto que simboliza a proximidade do kami. É esse símbolo que torna o templo um lugar sagrado. Os três símbolos mais importantes são: um espelho, uma jóia ornamental e uma espada, que ficam guardados em três dos maiores templos xintoístas. O espelho, a jóia e a espada estão ligados a um mito relativo à deusa do sol, Amaterasu, e ao primeiro imperador do Japão.

Segundo um dos antigos mitos divinos, Amaterasu certa vez foi provocada e se escondeu numa caverna. Mas ela foi atraída para fora por um espelho e convencida a brilhar novamente.

O Sacerdócio

Originalmente, as cerimônias eram realizadas pelo chefe da família ou do clã; num nível mais alto na escada social, por um príncipe ou pelo próprio imperador.

Aos poucos foi se desenvolvendo o sacerdócio como função mais especializada, em geral passada de geração em geração em determinadas famílias. Esse sacerdócio hereditário foi abolido quando o imperador elevou o xintoísmo à condição de religião estatal e transformou os sacerdotes em funcionários públicos.

Hoje, os sacerdotes em tempo integral ou parcial são nomeados pela organização dos templos. A maioria deles é casada e tem também um emprego secular. Após a guerra, as mulheres passaram a ser
elegíveis para o sacerdócio.

Os deveres do sacerdote são acima de tudo rituais: ele deve saber conduzir as cerimônias diárias e as grandes festividades religiosas.

Os quatro principais aspectos do culto

Parte essencial do xintoísmo, as cerimônias religiosas ajudam a evitar acidentes, promovem a cooperação e o contato com os kamis, e geram o contentamento e a paz para o indivíduo e a sociedade.

As cerimônias variam desde as mais simples, realizadas no lar, até as grandes festas anuais dos templos. Quatro elementos, porém, estão sempre presentes.

Purificação

O objetivo da purificação é banir tudo o que seja mau ou injusto, tudo o que possa pôr em perigo a relação do indivíduo com os kamis. A impureza é associada principalmente à doença e à morte, mas todas as funções carnais também geram impureza.

Todo serviço divino começa com uma purificação, que pode consistir apenas em lavar a boca e despejar um pouco de água na ponta dos dedos. No templo, ela é realizada pelo sacerdote, que agita um cajado especial diante dos indivíduos ou objetos a serem purificados. Na ponta desse cajado da purificação se encontram amarradas fitas de papel ou fios de linho, que o tornam semelhante a uma vassoura.

Sacrifício

Se as oferendas prescritas não são feitas, o indivíduo pode perder contato com os kamis e sofrer infortúnios. A oferenda pode consistir em dinheiro, alimentos ou bebidas. As diversas atividades artísticas ou esportivas associadas às festividades do templo também têm um significado religioso e devem ser consideradas uma espécie de sacrifício. Dança, teatro, luta e arco e flecha são atividades que se realizam em honra aos deuses.

Oração

A oração em geral começa com uma expressão de louvor ao kami a quem se dirige e uma expressão de gratidão por sua benevolência. Também se faz freqüente alusão à origem mítica relacionada com a oração, em outras palavras, seu fundamento místico. Depois se especificam as oferendas, com o nome da pessoa que está fazendo o sacrifício; a seguir, pode-se incluir um pedido em forma de oração.

Refeição Sagrada

Na conclusão da cerimônia há um naorai — uma refeição com os kamis. O sacerdote dá a cada um dos presentes uma pequena quantidade de vinho de arroz.

O culto no lar

Em quase todos os lares existe um pequeno altar chamado kamidana. Neste, há objetos simbólicos, como um amuleto para o kami, um pequeno espelho, uma vela, um vaso contendo galhos da árvore sakaki.

Dá-se início ao ritual lavando a boca e as mãos. Em seguida, põe-se um sacrifício diante do altar; pode ser algo tão comum como uma tigela com água ou alguns grãos de arroz. O suplicante senta ou fica em pé sobre um tapetinho, com a cabeça respeitosamente curvada. Após uma pequena oração, ele inclina a cabeça duas vezes, bate palmas duas vezes com as mãos erguidas e inclina mais algumas vezes a cabeça para finalizar o culto. Todos os alimentos que foram oferecidos são depois retirados e comidos à mesa.

Tenri-kyo

A tenri-kyo tem suas raízes na religião nacional japonesa, o xintoísmo, mas sofreu influências de várias outras. Foi iniciada em 1838 por uma mulher, Miki Nakayama. O deus Oya-gami lhe fez muitas revelações divinas e passou a habitar dentro dela.

Essas revelações estão registradas em escritos sagrados, um dos quais afirma: "Meus atuais pensamentos são expressos pela boca de Miki Nakayama. É verdade que é uma boca mortal que fala, mas são os pensamentos de um deus que formam as palavras".

A tenri-kyo é uma religião monoteísta. O deus Oya-gami é o único deus verdadeiro: criou o mundo e tudo o que há nele. O homem foi criado para a alegria e a realização plena na vida. O pecado implica que a pessoa é ingrata para com Deus e seus dons, e o caminho da salvação é viver uma vida contente aqui e agora. Como diz uma das revelações: "O deus da criação fez o homem para que este se deleite em sua feliz existência".

O lado criacional é fundamental na tenri-kyo. Isso se evidencia em seu culto, no qual se representa a criação numa dança ritual. Nessa dança, pede-se a Deus que abençoe tudo o que criou. Como ocorre no xintoísmo, é importante que Deus garanta a renovação de todas as coisas vivas, da vida humana e da vida natural.

Um aspecto da renovação da vida é a ênfase especial posta pela tenri-kyo na cura do sofrimento e da doença. Uma bênção dada durante o serviço diário do templo diz: "Atenda ao serviço divino diligentemente todos os dias, pois isso irá protegê-lo contra todos os infortúnios. Tomando parte ativa no serviço divino, até as doenças mais sérias serão curadas".

O objetivo da tenri-kyo é que todo mundo ouça a mensagem. Então, um estado de perfeita felicidade passará a existir na Terra. A cidade em que Miki Nakayama recebeu sua revelação se chama Tenri. Ali se encontra a sede desta religião, um enorme edifício que pode abrigar 25 mil pessoas. Essas sedes imensas — muitas delas construídas em belo estilo arquitetônico — também são típicas de algumas das outras novas religiões do Japão. A tenri-kyo está envolvida em ampla atividade missionária nas Américas e em vários países da Ásia.

REFERÊNCIA:

GAARDER, Jonstein; NOTAKER, Henry; HELLERN, Victor. O livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. págs.: 82-88.


4 comentários:

  1. o deus do Tenri- kyou é o mesmo Deus Cristão? É que á algumas semelhanças

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    1. Não. Não é. Mas em todas as religiões a sede pela justiça divina faz com que teologias estejam permeadas pela Verdade do alto. Ou seja, muitas religiões têm coisas em comum. Como um simples exemplo, veja a vida de Jesus Cristo e de Sidarta Gautama, o Buda. Ambos tiveram vidas semelhantes. Da mesma forma veja a teologia primitiva da Babilônia e dos Hebreus. Até o relato do dilúvio era parecido.

      Abração

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  2. Qual a doutrina do xintoismo? ( resumido )

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