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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Surpresa!!! O 666 não é 666

Por Juan Stam
Tradução: Carlos Chagas

Sobre o 666 há muito a dizer, e a primeira é que este não existe como tal. O que a Bíblia diz que é "6-6-6", e não "666", o que é muito diferente. Não é um "triplo seis" como seria "666" na aritmética moderna. O texto bíblico não tem o efeito de repetição, o mesmo número três vezes seguidas. A ênfase não cai em três dígitos de lado a lado , mas na suma expressada pela soma as três palavras originais. Qualquer que seja a interpretação, o significado não pode ser em três dígitos, mas se unindo como uma figura total. 

As pessoas nos tempos bíblicos não podiam sequer imaginar um número como "666" , pois não conheciam o sistema decimal. O número teve que ser "seiscentos - sessenta - seis" .

Além disso,naquela época não se usavam números, então eles tinham que usar as letras do alfabeto para sua aritmética , começando com "A" para "1" , "B" para "2", etc . Assim eles tiveram que escrever números como palavras, neste caso, "666" , ou se não, tem três personagens completamente diferentes, um para 600, um para 60 e outro para 6. Estas três letras diferentes em grego seria "jxs": o "chi" para seiscentos , o "xi" para sessenta e um "dígama" (letra arcaica) para 6. Se a marca da besta é uma tatuagem, não poderia ter sido "666" e sim essas três letras que nos parecem bem raras. 

Agora, se cada letra é um número diferente, então cada palavra ou nome também tem um número, o qual é a soma total dos valores numéricos das cartas respectivas . O nome "aba" seria "4" ( 1 2 1 ) ou " Abba " seria 6 ( 1 2 2 1 ) . Em uma parede de Pompéia há uma pichação bastante romântica dizendo: "Eu amo uma garota cujo número é 545". Entretanto, existe algo de interessante com essa conta. Se eu sei o seu nome, eu só tenho que trocar cada letra pelo número correspondente e somar. Mas se eu disser um número, sem saber a qual nome eu me refiro, nem quantas letras tem, e nem em que idioma está escrito, não teria nenhuma maneira eficaz de proceder do número ao nome correspondente. Por essa e outras razões, é quase certo que os crentes na Ásia Menor sabiam de antemão que esse número se referia a uma pessoa específica. O desafio não era para decifrar o número, mas para entender o significado dos números e ser fiel a essa mensagem. 

Os números misteriosos de Apocalipse 13:18, não só tem muitas interpretações, mas também diversas maneiras de interpretar. Uma dessas maneiras é ter um nome possível e calcular a soma de seus números. Este método produziu uma grande quantidade de candidatos, mas o mais provável é "César Nero", o primeiro perseguidor romano da igreja. Curiosamente, o cálculo é apenas se esse nome em sua forma grega, é transliterado com as letras do alfabeto hebraico com valores matemáticos correspondentes. Outro argumento confirma essa possibilidade. Alguns manuscritos têm um texto variante de "616", e verifica-se que este número corresponde à forma latina do mesmo nome, que tem a palavra final "n" de "Nero" , diminuindo assim o total por 50 pontos . 

Há um outro detalhe que confirma esta análise . O texto diz que "o número da besta é o número de (um) homem" ( 13:18) . Bem, a palavra grega para "besta" (Therion), convertido na mesma forma de letras hebraicas , também soma 666. Sabe-se que havia uma pichação contra Nero, com base no fato de "Nero" e "matricida" somam a mesma quantia ambos. Então , Apocalipse 13:18 estaria dizendo que Nero e a Besta são a mesma coisa. 

No entanto, temos também uma outra possibilidade. Uma escrita antiga chamada Oráculos Sibilinos, tem uma bela passagem que analisa o nome de "Jesus" em grego, e conclui que soma-se 888, ou seja, mais do que perfeito. Este é um texto cristão, escrito logo após o Novo Testamento, e mostra claramente que os cristãos usaram os mesmos jogos matemáticos. Mas, à luz desta passagem, o 666 de Apocalipse 13:18 poderia sugerir que a Besta pretende um dia ser absoluta (777), mas há sempre cai em um triste 666. Cristo, no entanto, é perfeito e mais do que perfeito. Nesse sentido, o Anticristo não é somente um anticristo, mas um pseudo-Cristo, uma imitação e paródia (muito boba) do único e verdadeiro Salvador. 

Ainda é de se supor que o número se refira ao Anticristo final, e sua marca será uma espécie de tatuagem na testa. No entanto, o próximo verso, 14:1 (os capítulos estão mal divididos) contrasta a marca da besta, com "o nome do Cordeiro e de seu Pai escrito nas suas testas". O selo de Deus, de Cristo e do Espírito é um tema muito comum no Novo Testamento (Apocalipse 7:4-8 , 2 Coríntios 1:22, Efésios 1:13, 4:30), e nós sabemos que não é uma marca visível ou física. Assim, parece que a marca da besta não será uma tatuagem. Muito menos estava pensando João em computadores e máquinas a laser, quando ele sequer conhecia a eletricidade. Nem tem a ver com o nosso calendário moderno (6 ​​de Junho), de que João não sabia de nada . Inventar tais interpretações é especular e adicionar à Palavra de Deus (Ap 22:18). 

Há uma outra coisa curiosa nesta passagem: o texto não diz que a besta "marcará a todos", em um tempo futuro, como se fosse uma previsão/predição. Ele diz que à Besta "foi dado poder para dar fôlego à imagem" e que "ele faz tudo ... a receber uma marca" (13:15,16), no passado e no futuro. Parece óbvio que os antigos dias de visões de João referem-se ao momento em que João tinha recebido essa visão. É típico das visões do Apocalipse, que quase sempre vêm no passado e no futuro. É claro que muitas das visões de João são claramente futuro (como a vinda de Cristo, Armageddon , o juízo final e a Nova Criação), mas outros claramente no passado ou presente (como o Filho do homem entre candeeiros, no trono e no céu). 

As visões do Apocalipse, é claro, podem ser futuras, mas não necessariamente, muito menos quando elas vêm escritas no tempo passado ou presente. No caso da marca da Besta, onde os verbos não são futuros, decidir se a marca é uma realidade futura literal ou não, é uma decisão humana de interpretação textual, não no sentido do próprio texto.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Não devemos julgar nosso irmão?

Por Carlos Chagas

Muito se ouve que não se deve julgar nossos irmãos segundo o que está escrito em Mt 7.1: "Não julgueis, para que não sejais julgados". Mas o que a Bíblia diz mais especificamente sobre isso?

O fato de alguém estar na igreja ou ser o principal dela não caracteriza o melhor cristão já que o próprio Cristo disse que às vezes, os filhos das trevas são mais prudentes que os filhos da luz.

Em Lc 16.8 diz assim: "E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz." O texto, em seu todo, trabalha a questão de não se proceder corretamente nas ações escolhidas. Deus condena a falta de critério e julgamento das ações.

Em Jo 8.7-11 diz assim: "E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais." Jesus a julgou inocente e condenou a ação dos demais ainda que em cogitação mental.
Em Jo 7:24 lê-se: "Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça"

1 Co 5.12-13 temos: "Porque que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo".

1 Co 14:29: "E falem dois ou três profetas, e os outros julguem" (o que foi falado).

Rm 12:8: "o que exorta, use esse dom em exortar".

Tt 2:6-15: "Exorta semelhantemente os jovens a que sejam moderados... Fala disto, e exorta, e repreende com toda a autoridade. Ninguém te despreze".

2 Tm 4:2-3: "... que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina. Porque virá tempo em que não sofrerão [suportarão] a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências".

Lc 12.57: "E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo?"

1Jo 4.1: "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai (julgai?) se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo".

E entre outras.

Não me cabe julgar como Deus julga (Mt 7.1), mas cabe aos cristãos julgarem os erros dos demais e de nós próprios. Aquele que diz que não devemos julgar os demais é mais antibíblico do que pensa, principalmente ao recitar Mt 7.1 achando que sabe de Bíblia.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Aprendendo sobre o método alegórico de leitura bíblica

Por Carlos Chagas

A palavra alegoria é de origem grega que significa “outro sentido”. A alegoria busca dar para o texto um significado mais abrangente, profundo e oculto, mostrando um sentido além do sentido literal das palavras. Este método era usado pelos gregos para buscar uma explicação filosófica, ou seja, um sentido para a vida. Este método começou a ser usado como método de leitura bíblica a partir de um judeu chamado Filo, de Alexandria no Egito (13 a.C. 40 d.C.), que se preocupava em passar ao mundo grego as grandes verdades do Antigo Testamento. Filo tinha uma formação judaica e era leal ás instituições e costumes de seu povo; ele também tinha uma formação filosófica, especialmente no platonismo.

Platão foi um filósofo que viveu em Atenas entre 427?-347? a.C. Este formou o conceito de que o mundo em que a humanidade vive é apenas uma representação do mundo perfeito das realidades imateriais, o “mundo das idéias”. Uma mesa, por exemplo, é o reflexo da mesa perfeita que existe neste mundo ideal. Conceitos e verdades espirituais, próprios do “mundo das idéias”, são representados por alegorias.

É importante lembrar que no primeiro século, a cultura grega estava dominando o Império Romano, ameaçando a cultura judaica, daí foram criados dois tipos de escolas: A escola de Antioquia, na Síria, e a escola de Alexandria, no Egito. Foi nesta última que o método alegórico de leitura bíblica veio a ser adotado.

Houve muitos adeptos a este tipo de método, entre eles estão: Orígenes, Tertuliano, Santo Agostinho, Jerônimo, etc.

Quanto à sua aplicação na Bíblia, devemos observar dois sentidos: O primeiro é o sentido literal do texto, que se apresenta na própria letra do texto. Este é muito útil para os neófitos. O segundo é o mais profundo, que o sentido alegórico. Este busca um sentido mais espiritual, acessível somente a pessoas sensíveis e espirituais. É nítido também como em cada detalhe há um sentido.

No método alegórico, nota-se pontos positivos como a preocupação em ligar a Bíblia com a realidade vivida pelo povo de Deus, a leitura mais espiritual da Bíblia, que visa alimentar a fé e o amor e uma posição mais pastoral, onde se busca maior contato com o povo. Mas nota-se também pontos negativos como a pouca fidelidade ao texto, diminuição do caráter histórico de algumas passagens e algumas interpretações que chegam a ser absurdas.

APRESENTAÇÃO DO MÉTODO ALEGÓRICO DE INTERPRETAÇÃO DO TEXTO DE 
Lc 10:30-37 E DE Gn 14:14.

Antes da apresentação do texto, é muito importante lembrar que uma alegoria para ser aceita como tal, não pode ferir o contexto proposto pelo próprio texto. A alegoria deve ser baseada com a mensagem literal do texto, buscando não se perder em seu decorrer.

O primeiro texto que está proposto é a parábola do “bom samaritano” citado por Jesus Cristo a um doutor da Lei que o tentava. O texto é o seguinte: “E respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais os despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote e, vendo-o, passou de largo. E, de igual modo, também um levita, chegando àquele lugar e vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano que ia de viagem chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão. E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, aplicando-lhe azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para a sua estalagem e cuidou dele. E, partindo ao outro dia, tirou duas dracmas, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele, e tudo o que de mais gastares eu to pagarei, quando voltar. Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai e faze da mesma maneira”.

Diante deste texto podemos observar claramente a mensagem que Jesus queria passar para o doutor da Lei. Este tentava Jesus para ver se Ele realmente conhecia a Lei, mas o doutor foi pego em sua própria cilada, quando Jesus lhe ditou esta parábola para testar seus conhecimentos e seu amor para com o próximo. O que Jesus queria na verdade, era mostrar que títulos e conhecimento nada valem sem a prática do que se conhece. Lendo a parábola pode-se observar que a mensagem literal era: Ame e se preciso for ajude o seu próximo quando este se encontrar necessitado.

Bom, a proposta deste trabalho não é de mostrar a interpretação literal, mas sim duas interpretações alegóricas como exemplo. O primeiro exemplo será uma interpretação totalmente fora da idéia central do texto, que já foi dito anteriormente. O segundo, será uma aplicação mais fiel, buscando reforçar a interpretação literal do texto aprofundando em seus detalhes.

1-Primeira interpretação alegórica: Lc 10:30-37.

O homem que descia de Jerusalém a Jericó retrata a vida de alguém que vive no mundo e que não quer um compromisso sério com Deus. Como este homem não buscava refúgio em Deus, ele se deparou com um bando de salteadores, que são os demônios que o destruiu espiritualmente, deixando-o meio morto (espiritualmente). Mais adiante da história, um sacerdote e um levita passam por ele, mas de forma indiferente. Estes dois representam os cristãos que só ligam para o título e que não importam com a situação que alguém possa estar, mesmo a situação sendo comovedora. Mas um samaritano, que representa um cristão mal falado pela comunidade, só que bem visto por Deus, resolve ajudá-lo fazendo de tudo a este ferido e oprimido, como se este fosse seu parente mais próximo. Para cuidar das feridas, o samaritano usa o óleo e o vinho que representam a unção do Espírito Santo e a remissão dos pecados pelo Sangue do Cordeiro vertido na cruz respectivamente. O samaritano ao deixar o homem na hospedaria, que representa a Igreja de Cristo, deixa duas dracmas que representam o Antigo Testamento e o Novo Testamento, ambos que são indispensáveis para a Salvação completa de todos os erros. O hospedeiro, que é o pastor da igreja, tem como função de cuidar, ensinar e prepará-lo para a volta de Cristo, que é simbolizada pelo samaritano em sua volta.

Nota-se que esta alegoria feriu completamente a regra para interpretação do texto bíblico em vários aspectos. Primeiro porque não seguiu a idéia literal que o texto por si expressa e segundo porque coloca interpretações dogmáticas e idéias concebidas na própria consciência do autor como tentativa de enriquecer as conclusões precipitadas, mas que na verdade acabou destruindo a essência da mensagem alegórica.

2-Segunda interpretação alegórica: Gn 14:14.

“Ouvindo, pois, Abrão que o seu irmão estava preso, armou os seus criados, nascidos em sua casa, trezentos e dezoito, e os perseguiu até Dã”.

Esta passagem era muito usada por Barnabé; um professor-catequista da escola de Alexandria, que é autor da Carta de Barnabé, que tem tendências gnósticas e com uma interpretação altamente alegórica do Antigo Testamento.

Barnabé ficou famoso com sua interpretação alegórica deste trecho bíblico, onde ele buscou provar que Abraão sabia não somente o nome de Cristo, mas até que Jesus haveria de morrer na cruz: “Filhos do amor, aprendei mais particularmente estas coisas: Abraão praticando por primeiro a circuncisão, circuncidava porque o Espírito dirigia profeticamente seu olhar para Jesus, dando-lhe o conhecimento das três letras. Com efeito ele diz: ‘E Abraão circuncidou entre os homens de sua casa trezentos e dezoito homens.’ Qual é, portanto, o conhecimento que lhe foi dado? Notai que ele menciona em primeiro lugar os dezoito e depois, fazendo distinção, os trezentos. Dezoito se escreve: I que vale dez, e H que representa oito. Tens aí: IH (sous) = Jesus. E como a cruz em forma de T devia trazer a graça, ele menciona também trezentos (=T). Portanto, ele designa claramente Jesus pelas duas primeiras letras e a cruz pela terceira”. Barnabé 9:7-8.

Apesar desta alegoria ser ainda hoje muito discutida por serem polêmicos os termos usados, é muito aceita pelos demais devido à sua erudição. É notável hoje o quanto que as igrejas evangélicas são influenciadas por este tipo de interpretação bíblica por esta ser uma interpretação “espiritualizante”. É com pesar que muitos cristãos ainda usam este método, que é tão lindo, como forma de oprimir e “escravizar” o povo de Deus.

Conclui-se então que o método de interpretação alegórica pode ser muito útil quando usada com inteligência e moderação por aqueles que vivem e pregam o Evangelho de Cristo. É uma ótima ferramenta de trabalho que dá mais gosto para quem escuta e até mesmo para quem recita. Deve ser usada sim, mas com muita atenção e provido de conhecimento!

sábado, 6 de novembro de 2010

O Apocalipse de João: Documentário da Discovery Channel

Por Carlos Chagas

Muitos procuram entender o último livro da Bíblia Cristã: O Apocalipse de João. Livro repleto de visões e enigmas o livro de Apocalipse foi e ainda é o livro mais comentado dentro e fora do Cristianismo, talvez por sua mensagem enigmática que convida qualquer um a decifrá-lo.

O problema neste desafio de decifrá-lo é perceber que existem milhares de interpretações destas profecias apocalípticas, e que não é só uma a portadora da interpretação final sobre o futuro da Criação. Logo, a Discovery Channel buscou, de forma histórica e indutiva, apresentar uma interpretação deste livro. Sabe-se que não é a única válida, mas também não pode ser desprezada uma vez que toda interpretação que parte do livro sem feri-lo em seu raciocínio passa a ter credibilidade entre as demais interpretações. Portanto, segue o vídeo como um desafio à sua interpretação.



Para assistir às demais partes clique no link que aparece no final de cada vídeo.

Leia também:

sábado, 29 de maio de 2010

O livro de Romanos: Introdução ao estudo e breve aplicação para hoje. PARTE 2/2

Por Carlos Chagas

A Teologia de Romanos

Por ser talvez o principal livro de Paulo Romanos conta com uma perfeita elaboração teológica já que este livro é uma espécie de suma do pensamento evangelístico de Paulo. Diversos temas e termos são adotados pelo apóstolo. Mas o mais forte da epístola de Romanos talvez seja a justificação pela fé. Em 3.28 se encontra o pensamento que trabalha a salvação fora das obras. Este pensamento sobre salvação se repete em Gálatas e Colossenses.

“Carne” e “Espírito”

Paulo também trabalha a oposição entre “carne” e “Espírito”. Estas duas palavras laboram, para Paulo, uma incessante luta entre si dentro da alma humana. Mas este conflito não é o mesmo que pode ser encontrado na filosofia grega. Não se refere à briga entre matéria e mente e nem entre os elementos físicos e racionais do homem.

A palavra “carne” abordada por Paulo procura se desprover dos conceitos do Antigo Testamento. Vale lembrar que carne no AT possui diversos sentidos como: carne humana, criação de Deus bem como sua fraqueza, mortalidade e natureza humana (Gn 6.12; Is 40.5; Jl 2.28; Sl 78.39). Carne no AT pode se referir ao que simplesmente se conhece como “eu” (Sl 63.1). Contudo Paulo emprega a palavra “carne” (do grego sarx) em Romanos com os seguintes conceitos:

1- Possui sentido de “carne” corporal (2.28) onde a circuncisão literal da carne adota um sentido de circuncisão espiritual do coração;

2- Possui sentido de descendência ou relação humana natural. Enquanto Cristo é mencionado em 1.3 como descendente de Davi segundo a “carne” e quando Abraão é chamado de “nosso pai” segundo a “carne” em 4.1 Paulo também menciona Abraão como sendo pai de todos os que crêem (4.11, 16). Existem os “filhos da carne” e os “filhos da promessa” (9.8);

3- Usa-se “carne” no sentido de humanidade (3.20) quando ele cita a palavra referindo-se à tentativa de justificação por obras da lei;

4- Usa-se “carne” no sentido da natureza humana: (a) Por ela ser fraca (6.19); injusta (8.3; o mesmo de Mt 26.41 usado por Jesus); (b) para falar da natureza humana de Cristo em semelhança de carne pecaminosa (8.3); (c) da velha natureza do cristão onde não há nada de bom (7.18) onde se é escravo da lei do pecado (7.25); carne esta que foi crucificada com Cristo (6.6); (d) e por ser não-regenerada (8.8);

5- Para falar que aqueles que se encontram em Cristo já não podem mais serem guiados por esta “carne”, mas pelo “Espírito” (8.4s, 12s);

6- Relacionada ao pecado e à morte (7.23; 8.2).

A palavra “Espírito” é colocada antagonicamente pelo AT com a palavra “carne” (Is 31.3). Esta palavra está relacionada ao espírito de Deus e ao do homem também. Em Romanos essas 2 palavras estão dispostas antagonicamente uma à outra (8.4, 9). Para Paulo a palavra “Espírito” podia significar:

1- A parte espiritual da constituição humana (1.9);

2- O Espírito de Deus (Espírito Santo) (1.4, 8.11), o qual dá testemunho verdadeiro quando age na consciência humana (9.1) e que santifica (15.16). Este traz amor, paz, poder, alegria e esperança (5.5, 15.30, 14.17, 15.13). Este Espírito comunica vida (8.4, 5, 6, 10), dá liberdade do pecado (6.18, 22); direciona o cristão (8.14); intercede pelos seus (8.26s); é instrumento de santificação e penhor de um futuro predito (Jl 2.28-32).

3- O Espírito supre a vida e intercede pelo seu povo (8.15, 26s);

4- É instrumento de santificação e penhor do futuro (6.23; 8.23).

A Lei em Romanos

A palavra lei ocorre cerca de 70 vezes no livro de Romanos. A palavra Lei (nomos, em grego) pode se referir: Ao Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) (3.21), ou ao AT em sua totalidade (3.19), ou a um princípio (3.27). Para Paulo a Lei era vista como palavra de Deus. Ao se dizer que a Lei era de Moisés era conhecido que na verdade a lei era de Deus e que esta foi passada para Moisés e de Moisés para o povo. Mas a Lei de Deus, segundo Paulo, não era exclusiva do povo de Israel, pois Deus criou a todos para que todos vivam essas leis. Segundo Paulo até mesmo os gentios são indesculpáveis de não seguirem retamente a lei, que é dada através da consciência e da natureza (2.14). A consciência do pecado vem do reconhecimento da própria consciência corrompida.

Para Paulo a Lei deve ser cumprida, seja como ela venha ser revelada (7.12), contudo ninguém deve achar que terá méritos no céu somente porque a guardou. Paulo insiste que a Lei é boa para se ter ordem, mas não vale para justificação e libertação do pecado. Sendo assim, para que a Lei serve? Eis alguns argumentos:

1- Foi dada para ser uma revelação de Deus e de sua vontade: A lei não nasce somente de convicções sociais, mas de base no ser e no caráter de Deus (7.12, 16, 22).

2- Foi dada para o bem estar e a preservação da raça humana: Nas mãos do governo civil a lei serve para impedir e castigar a prática do mal estimulando a prática do bem (13.1-7).

3- Para revelar o pecado e trazer arrependimento e confiança na graça de Deus: Apesar do homem que guarda a lei necessitar de viver por ela (10.5) ninguém será justificado por ela devido ao fracasso em guardá-la perfeitamente (3.20, 23). O homem demonstra ser rebelde para com Deus quando este não cumpre os mandamentos, de modo que vem, pela Lei, o pleno conhecimento do pecado (3.20; 7.7). Sendo assim Paulo suscita a dúvida: Como pode o homem ser justificado por aquilo que o condenou? Se a Lei condenou o homem, como este pode ser salvo por aquela? Paulo responde em outra epístola que esta lei serviu de tutora até que o homem conhecesse plenamente Cristo (Gl 3.24). Sendo assim, agora que Cristo veio, Ele “é o fim da Lei para que todo aquele que tem fé seja justificado” (10.4). Assim, a Lei serviu para mostrar ao homem seu pecado, tendo então a necessidade de fé nas promessas divinas de salvação. Os que são justificados pela fé nEle não estão “debaixo da Lei e, sim, da graça” (6.14).

4- Foi dada para prover orientação para a vida do cristão: Apesar de que quem está em Cristo vivem segundo o Espírito (8.3) as exigências da lei se cumprem nele com divina espontaneidade. A lei serve de parâmetro para a vida cristã. Contudo esta lei só possui sentido quando iluminada na nova lei que é o amor, pois quem ama tem cumprido a lei (13.8-10). Porquanto quem não rouba, não adultera, não cobiça se resume em uma só tese: Ama o próximo. Sendo assim a forma com que Paulo trata o Evangelho não é de forma antinomista (contrária à lei). Pelo contrário. Paulo apenas mostra que a vontade de Deus não está escrita num código externo de leis, e sim na vivência das leis divinas que agora estão no coração do cristão que, em fé, as pratica. E essa prática está maior que a tese da lei (12.1).

Esboço de Romanos

I- Introdução 1.1-17
A. Identificação de Paulo 1.1-7
B. Desejo de Paulo de visitar Roma 1.8-15
C. Resumo do Evangelho 1.16-17
II- Todos Pecaram 1.18 – 3.20
A. Os gentios conhecem Deus, mas o rejeitam 1.18-32
B. Os judeus têm as leis de Deus; mas não são justos 2.1-29
C. Deus é justo para julgar todos os seres humanos 3.1-20
III- Justificação apenas pela fé 3.21 – 5.21
A. Justiça de Deus preservada através da morte de Cristo por nós 3.21-26
B. Justificação apenas pela fé 3.27-31
C. Abraão justificado pela fé, não pelas obras 4.1-25
D. Uma vez justificados pela fé, nós triunfamos mesmo no sofrimento 5.1-11
E. Nós ganhamos a morte através do pecado de Adão, mas a vida eterna mediante a obediência de Cristo 5.12-21
IV. Praticando justiça na vida cristã 6.1 – 8.39
A. Superando o pecado na vida cristã 6.1-23
B. Estamos mortos para o sistema impotente chamado “lei” 7.1-6
C. A lei não pode mais nos dar poder para obedecer 7.7-25
D. Nós cumprimos a justiça de Deus vivendo no poder do Espírito e de acordo com o Espírito 8.1-17
E. Ansiando pela redenção completa 8.18-25
F. Ajuda e segurança na adversidade 8.26-39
V- Deus e Israel 9.1 – 11.36
A. Embora Israel seja infiel, Deus é justo 9.1-33
B. Israel rejeitou o Evangelho de bom grado 10.1-21
C. Agora permanece um remanescente, e algum dia da salvação completa chegará a Israel 11.1-32
D. Louvem a infinita sabedoria de Deus 11.33-36
VI- Aplicações práticas 12.1 – 15.13
A. Apresentem-se como sacrifícios a Deus 12.1-2
B. Uso de dons espirituais 12.3-8
C. Relacionando com cristãos 12.9-13
D. Relacionando com descrentes 12.14-21
E. Relacionando com o governo 13.1-7
F. Alei do amor 13.8-14
G. Tolerância e amor em coisas secundárias 14.1-23
H. Cuidando um do outro 15.1-13
VII- A própria situação de Paulo 15.14-33
A. Seu ministério 15.14-22
B. Seus planos 15.23-33
VIII- Recomendações pessoais 16.1-24
IX- Bênção 16.25-27

A epístola de Romanos para a atualidade

Ainda hoje muito se discute sobre qual seria o principal tema da epístola de Romanos. Para os reformadores foi destacada a justificação pela fé, que vai dos capítulos 1 – 4. Outros estudiosos como Albert Schweitzer achava que a questão da justificação pela fé não passava de doutrina de combate de Paulo contra os judaizantes, e que o verdadeiro teor de ensino de Romanos se encontra em 6 – 8, onde se tem a união com Cristo e a obra do Espírito Santo. Outros defendem que o centro de Romanos é sobre a história da salvação que está nos capítulos 9 – 11, caso do estudioso Krister Stendahl. Outros já dizem que a exortação à prática da unidade, em 14.1 – 15.13 é a essência da carta.

Fato é que Romanos não possui um tema único. Todavia, se fosse necessário destacar uma palavra-chave do livro com certeza seria a palavra “Evangelho”. É esta palavra que vem destacada em 1.16-17. Diante desta perícope Paulo inicia seu discurso onde se concentra toda a sua teologia cristã, a qual é o recheio de todas as suas cartas. Romanos é, portanto, a exposição que Paulo faz de seu Evangelho. Então nasce a pergunta: O Evangelho que tem sido pregado nos dias atuais tem tido tanta coerência como o Evangelho pregado por Paulo como é visto na epístola de Romanos? Será que a pregação atual tem combatido temas pertinentes, nocivos, radicais, relevantes como o foi em Romanos?

As palavras de Romanos estão predispostas ao contexto do século I. E é neste contexto que existe um elemento muito importante a ser destacado: A natureza da continuidade entre a primeira e a segunda “palavra” de Deus e entre o povo daquela primeira palavra, Israel, e o povo da segunda palavra, a igreja. Diante disso nascem dois pontos para reflexão: (1) Sendo a igreja o povo da segunda palavra como esta tem se compreendido como tal? Seria esta igreja um ajunte de pessoas salvas, ou uma organização salvadora? A salvação de Romanos está intimamente ligada à fé. E a salvação da igreja de hoje? A salvação atual estaria ligada somente à fé ou a observância de ritos, sacramentos e regras? E (2) a igreja deve ser compreendida como organismo (algo que cresce involuntariamente) ou organização (que adere medidas para o próprio crescimento)? Seria certo a igreja se ver como separada de Israel no quesito salvação? O fato é que a palavra Israel em Romanos possui dois sentidos: Povo e qualidade da palavra (Israel = Vencedor). Teria Deus sentimentos diferentes para dois povos? Amaria Deus dois povos de formas diferentes?

Por fim, devem ser observadas a atenção e zelo que Paulo utiliza o Antigo Testamento para escrever seus textos, que mais tarde comporiam o Novo Testamento. Paulo deixa clara a importância da maneira como de expressa a relação entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento, entre a lei e o Evangelho, Israel e a igreja – o grau de continuidade e descontinuidade – a qual é crucial para a construção de qualquer teologia cristã. O que se vê nos dias atuais são construções de teologias cristãs, nas quais podem ser destacadas disparidades entre si, o que promovem desequilíbrio na compreensão bíblica como um todo. Muitas teologias cristãs elaboradas no Brasil e no mundo têm tido essa falta de respeito entre os dois Testamentos. Nas epístolas de Paulo isso não é constatado. Fica aqui então o apelo aos líderes cristãos que repensem suas teologias aplicadas: Que estas não venham a ferir o pleno Evangelho, o qual Paulo pregou até sua morte.

Referências Bibliográficas

BRUCE, Frederick Fyvie. Romanos: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005.

CARSON, D.A., MOO, J., MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

BÍBLIA SAGRADA Plenitude, Edição de Estudos.

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quinta-feira, 20 de maio de 2010

O livro de Romanos: Introdução ao estudo e breve aplicação para hoje. PARTE 1/2

Por Carlos Chagas

Época da produção da epístola

Durante dez anos (47 a 57 d.C) Paulo realizou intensa evangelização dos territórios que margeiam o mar Egeu. Após evangelizar e deixar líderes responsáveis em cada cidade (Icônio, Corinto, Filipos, Tessalônica, Éfeso, e outras) Paulo conclui seu primeiro grande plano de campanha. Seu segundo plano era ajuntar dinheiro de ofertas para ser entregue à igreja de Jerusalém tentando com isso fortalecer os laços entre igreja-mãe, na Judéia, e igrejas gentílicas.

Após a consumação dessa transação Paulo é tomado de ansiedade para concretizar a vontade de anos em seu coração: Visitar Roma. Embora cidadão romano por direito de nascimento Paulo nunca esteve na capital. É fato que Paulo não queria se estabelecer em Roma, como fica claro em sua afirmação em 15.20 de "não edificar sobre fundamento alheio". Entretanto Paulo se estabeleceria por pouco tempo até que, em momento oportuno, chegasse à Espanha e iniciasse nova campanha de evangelização.Sabe-se que o Evangelho já havia chegado em Roma bem antes de sua conversão.

Diante dessa sua vontade de conhecer Roma, de conhecer também seus irmãos em Cristo, e de ter novas terras a serem evangelizadas além de Roma, Paulo, com a ajuda de Tércio, seu "secretário", a mando de Gaio, seu hospedeiro, se propõe a escrever uma carta aos romanos visando prepará-los para a sua visita à cidade e explicar a finalidade da mesma. Paulo aproveitou também para deixar registrado na carta a sua compreensão do Evangelho e de como ele o pregava.

O cristianismo em Roma

Estudos deixaram claro que a igreja cristã de Roma não era de organização tão recente. Em At 2.10 se tem uma passagem interessante sobre o dia da festa de Pentecoste (30 d.C.) onde Pedro pregou para diversos visitantes procedentes de Roma. Não se sabe se deles se têm convertidos da remessa de três mil pela pregação de Pedro. O cristianismo de Roma tinha vindo de uma mistura com a religião judaica. Estes cristãos e estabeleceram em Roma sem sinais de obras milagrosas e sem nenhuma ajuda dos apóstolos. Logo, fica claro que foram pessoas "simples" que pregaram o Evangelho no seio de Roma e, provavelmente, no meio da comunidade judaica da capital. Ainda segundo estudiosos um provável Chrestus foi o iniciador dos cristãos. Sabe-se que este foi impulsionado a propagar o Evangelho após problemas com o imperador Cláudio, quando este insistiu em perturbar os cristãos de Roma.

Outra prova de que o Evangelho de Cristo havia chegado em Roma antes da pregação de Paulo é o fato de Priscila e Áqüila já se encontrarem em estado cristão. Paulo jamais dá a idéia de que eram seus filhos na fé. Estes podem ter sido dispersados juntos com os demais judeus cristãos do primeiro século pela ordem de expulsão de Cláudio.

Algumas informações interessantes sobre os membros da igreja romana de 57 d.C. podem ser encontradas em 16.3-16. Alguns cristãos mensionados ali podem ter tido contato com Paulo em algum lugar e depois se instalado em Roma. Dois nomes, Andrônico e Júnia (ou Júnias), são representantes desse caso. Considerados os primeiros cristãos da igreja primitiva estavam em Cristo antes do próprio Paulo (16.7), eram muito conhecidos dos apóstolos e também reconhecidos como apóstolos. Rufo, cristão citado por Paulo no verso 16.13 provavelmente é o filho de Simão Cireneu mencionado em Marcos 15.21. Talvez Paulo tenha conhecido sua mãe em Antioquia durante sua visita.

O cristianismo encontrou solo fértil em Roma. Apesar do cristianismo romano ser uma mesclagem judaísmo com cristianismo, este conseguiu bom progresso na mensagem do Evangelho, contudo conseguiu também levantar a ira de muitos romanos, que viam o cristianismo como sendo mais uma superstição oriental. Foi aproveitando dessa visão torpe dos romanos que o imperador Nero, sete anos mais tarde, procurou à sua volta bodes expiatórios para que pudesse jogar sua culpa pelo grande incêndio de Roma para entõ se safar de uma revolta. Não foi muito difícil encontrar; os cristãos de Roma eram impopulares. Eram vistos como inimigos da raça humana, pois eram acusados de práticas de canibalismo e incesto. Foi a perseguição de Nero contra os cristãos que tradicionalmente compôs o cenário para o martírio de Paulo e Pedro.

Três anos após escrever a carta Paulo finalmente visita Roma. Não da forma que ele esperava. Após poucos dias de sua estadia em Jerusalém, os soldados romanos da Judéia alegaram que Paulo havi praticado grave ofensa à santidade do templo. O processo se arrastou até que Paulo se valeu dos seus direitos de cidadão romano e pediu para que o julgamento de sua causa fosse transferida para Roma, para a jurisdição direta do imperador. Após naufragar e se refugiar na ilha de Malta ele chega em Roma por volta do ano 60 d.C. Por dois anos Paulo é mantido sob guarda em seus alojamentos particulares sendo permitido receber visitas e propagar o Evangelho no centro vital do Império.

Quanto à sua visita à Espanha nada se sabe. Ainda se discute se Paulo conseguiu ou não evangelizar os espanhóis. Sabe-se que poucos anos mais tarde Paulo foi sentenciado à morte em Roma como líder dos cristãos. Segundo a tradição Paulo foi levado para fora da cidade onde foi decapitado. No local de sua decaptação encontra-se a Igreja de San Paolo Fuori le Mura (São Paulo Fora dos Muros).

A Epístola aos Romanos e o Corpo Paulino

Após intensos estudos sobre a epístola de Romanos descobriu-se que esta não foi apenas uma espístola entreoutras. A epístola de Romanos teve grandes particularidades que a destaca como, talvez, a mais importante carta de Paulo. Primeiro pelo fato de esta não ter sido uma única carta. Ao que parece Paulo escreveu esta carta, no mínimo, três vezes: Uma no tamanho que se possui ainda hoje nas Escrituras, outra sem o capítulo 16, e outra sem trechos específicos para pessoas específicas de alguns lugares sem importância para outros. Paulo retirou tais partes da epístola simplesmente porque não valeria a pena copiar a carta novamente (o que era penoso para a época) e enviar a outro grupo que não se identificaria com certos trechos. O capítulo 16 tem valor apenas a uma igreja de Roma, por isso a sua retirada das outras cópias.

Outra característica importante da epístola é o fato de esta epístola ter causado tanta influência em Roma. A se ler a epístola de Clemente aos Coríntios percebe-se toda a estrutura e pensamentos da epístola de Paulo aos Romanos. Ao que parece, Clemente decorou a carta aos Romanos e depois adaptou-lha para os coríntios. Além do mais, parece que esta carta foi considerada um tesouro em sua época porque foi uma das poucas cartas que conseguiu sobreviver à perseguição de 64 por Nero (este mandou queimar as cartas e quem as possuía). Essa carta sempre possuiu preço de sangue dos mártires.

Também segundo estudiosos da epístola, esta pode ser considerada o Evangelho de Paulo, uma vez que Paulo descreve ricamente sua visão sobre o que seja o Evangelho de Cristo e também por ser uma carta com perfeita estrutura e pelo seu tamanho. Esta é a maior carta de Paulo. A epístola de Romanos causou tanto impacto que um grupo de pessoas resolveu ajuntar todas as epístolas de Paulo para formarem o corpo paulino (corpus paulinum). Este corpo pulino chegou a ser formado por 13 cartas, incluindo Hebreus, apesar de esta carta não ser da autoria de Paulo. Mas esta discussão de autoria é recente.

Romanos e o Evangelho Paulino

Romanos é uma carta que foi escrita antes do prolongamento de sua pena de detenção, primeiro em Cesaréia, e depois em Roma. Portanto foi escrita após Tessalonicenses, Coríntios e Gálatas e antes de Colossenses e Efésios. Alguns temas abordados em Romanos são comuns em outras epístolas: Sobre comida 14.1 com 1 Co 8-10; sobre os membros do corpo 12.3ss com 1 Co 12; antítese de Adão e Cristo 5.12ss com 1 Co 15.21, 45; e a coleta em prol de Jerusalém 15.25ss com 1 Co 16.1 e 2 Co 8, 9.

De todas as epístolas de Paulo a que mais coaduna com Romanos é Gálatas. Em Gálatas se encontram as mais duras palavras de Paulo a respeito dos que tentam pregar um Evangelho que não tenha a Graça de cristo. É em Gálatas que se encontram ensinos que vão contra àqueles que acrescentam regras ao cristianismo, as quais, para Paulo, eram uma tremenda deturpação do Evangelho. Romanos possui a mesma idéia de Gálatas: Ir contra aquilo que diz respeito à salvação por obras. A pergunta que tanto Romanos quanto Gálatas realizam é a seguinte: "Se for possível ao homem ser justificado perante Deus pela observância das exigências das leis judaica, qual foi então, o papel desempenhado pela morte de Cristo, o ponto central do Evangelho?" Para Romanos e Gálatas a salvação vem somente da graça divina pela fé.

Portanto sobre salvação Romanos tratará de usar espécies de antíteses para esclarecer o raciocínio. Duas antíteses muito usadas são Fé e Obras; e Carne e Espírito. A nova vida em Cristo mostra que a vida é comunicada pelo Espírito, e tão-somente por este. A tentativa de se viver pelo "Espírito" e pela "carne" está fadada ao fracasso, porque as duas ordens estão em franca oposição uma à outra: "a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne" (Gl 5.17). As antíteses fé versus obras e Espírito versus carne reaparecem em Romanos numa seqüência lógica: A primeira nos capítulos 3 e 4, onde se discute o caminho para a justiça, e a última nos capítulos 7 e 8, onde o assunto é o caminho para a santidade.,

Outro paralelo entre Gálatas e Romanos se encontra nas passagens que Paulo trabalha o personagem Abraão (Gl 3.6-14 e Rm 4). A história de Abraão é usada por Paulo para mostrar a superioridade da fé ante a Lei de Moisés. Segundo Paulo Moisés escreveu a Lei que fala da fé de seus antecedentes. Um destes é Abraão. Paulo afirma que a Lei mosaica só existe porque Abraão ousou a crer. Logo, são filhos de Abraão, aqueles que, por meio da fé, assim como Abraão, ousam a crer em Deus. Em suma, para Paulo, o Evangelho é o cumprimento das promessas feitas por Deus a Abraão e à sua posteridade. Paulo afirma que a razão da existência da lei mosaica está na existência das promessas, que antecedem a própria lei.


Paulo luta veemente contra a instituição da lei mosaica aos cristãos. Paulo afirma que a lei, se observada em algum ponto, mínimo que seja, deve ser vivida em sua inteireza. E se vivida, esta será a própria maldição porque ninguém consegue cumpri-la. A mensagem do Evangelho pregado por Paulo anula a lei mosaica uma vez que o Evangelho tem em si a liberdade do cristão, liberdade esta que é concedida por Cristo na cruz. Então por que voltar aos rudimentos da lei? Por que submeter-se à servidão? Todavia essa liberdade não tem a ver com uma espécie de lei anárquica. A fé apresentada pelo Evangelho é fé que se manifesta em vida de amor, e assim se cumpre "a lei de Cristo" (Gl 5.6; 6.2).

Na época da escrita de Romanos existia um problema quanto ao Messias ser condenado como maldito (crucificado). Se Jesus merecia a condenação não era a questão maior, mas sim o fato de alguém, que é o Messias, ser condenado como maldito pelo próprio Deus (Dt 21.23). Como isso é possível? Como uma pessoa é Messias (enviado de Deus) e ser maldito pelo próprio Deus (crucificação)? Foi essa radicalidade da cruz que trouxe a conversão a Paulo. Para o apóstolo o que difere Jesus dos demais messias da sua época é a ressurreição de Cristo. Para Paulo, nada mais é prova maior do que aquele que foi condenado, morto, ressussitado dentre os mortos e ainda coroado como Rei dos Reis. Mas soa como se a lei tivesse mudado do nada após a morte de Cristo. E isso não é aceito. Por que deveria mudar? Na verdade foi a compreensão da lei que estava parcialmente revelada. É aqui que entra a revelação maior de Paulo sobre a morte de Cristo: Gl 3.10-13. Jesus levou sobre si a maldição que a Lei sentenciava para todos os que não cumprissem completamente (Dt 27.26). Isso era comum nas escolas rabínicas. Mas nenhum rabi formulou que o Messias devia sujeitar-se voluntariamente à maldição lançada sobre os infratores da lei de Deus, para livrá-los dquela maldição. Deste modo, a doutrina de um Messias crucificado, que outrora fora uma pedra de tropeço para Paulo, veio a ser a pedra fundamental de sua fé, bem como sua pregação. Assim fica explicado: A maldição da cruz foi quebrada por Cristo porque este se entregou em fé pelos demais, o que não é validado pela lei, mas pela instância maior, que é a fé nas promessas. Cristo creu e isto lhe foi imputado por justiça. Diante dessa suma Paulo explica para os judeus porque sua crença na lei mosaica os levarão à condenação (Rm 9.32).

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terça-feira, 11 de maio de 2010

O livro de Filemom: Introdução ao estudo e breve aplicação para hoje

Por Carlos Chagas

A ocasião e o propósito da carta

A mais breve das epístolas que integram o corpo de escritos paulinos e o Novo Testamento a epístola de Filemom pode ser considerada também como uma espécie de bilhete no qual Paulo tenta de forma persuasiva ajudar nas relações de Senhor/Escravo, não ausentando o caráter de epístola, que tem como característica sua leitura comunitária (o problema de Filemom foi a conhecimento de todos da comunidade ao menos pela epístola de Paulo). Filemom era um cristão da comunidade de Colossos, provavelmente uma pessoa de posses (o fato de ter escravos permite tal ideia), e de destaque na comunidade (v. 4, 7). Onésimo, escravo fugido de Filemom, cometera uma ato injusto contra o seu senhor (v. 18), ato do qual não se sabe o que especificamente, e fugira. Este escravo teve um encontro com Paulo, no qual ele relatou toda a situação. Tal encontro pode ter sido com Paulo na prisão ou apenas uma tentativa de refúgio na companhia do apóstolo. Paulo pede a Filemom que receba Onésimo novamente como seu escravo em qualidade de irmão (v. 16) e como se fosse o próprio apóstolo (v. 17).

O fato de Paulo deixar claro para Filemom que ele o restituirá em tudo (v. 18) demonstra mais que a possibilidade de roubo (teria havido roubo?), uma vez que as leis romanas deixavam claro que que acolhesse um escravo fugitivo assumiria o montante de cada dia de trabalho perdido a ser entregue ao seu dono. Também parece que Onésimo conhecia bem as leis que regiam a Roma. Uma delas dizia que um escravo fugido poderia encontrar repouso na casa de um amigo ou familiar. Contudo isso é difícil de aceitar devido à passagem do v. 13 onde Paulo transparece a outra parte da lei romana que dizia que um escravo deveria ser vendido para pagamento das despesas do seu antigo dono. Paulo queria ter Onésimo ao seu lado, todavia com o prévio consentimento de Filemom.

Algumas coisas ficam sem explicações claras na epistola: (1) Com relação ao tempo de duração da estadia do escravo junto ao apóstolo pode ter durado um tempo maior que o normal para a época; (2) não se sabe se a epístola tem o objetivo de Paulo buscar uma certeza de que Onésimo será aceito novamente por Filemom, ou se Paulo que sondar a possibilidade de Onésimo ser seu companheiro de pregações; (3) e o fato de Paulo pedir para Filemom aceitar Onésimo como um membro da família (v. 15-16) é um tanto quanto forçada para a época.

A liberdade do escravo era tão oficializável como o ato de torná-lo escravo. Ao fugir o escravo poderia comprar sua liberdade depositando nos altares dos deuses romanos determinadas quantias, as quais eram transferidas pelos sacerdotes destes templos ao seu antigo senhor à medida que este escravo comprava sua liberdade. Nos templos de Apolo e Delfos era possível ler os nomes dos escravos que estes deuses libertavam. Mas o ato do perdão era algo mais complicado. Paulo usara de pensamentos repletos de revolução intelectual e cultural ao pedir a Filemom que o aceite sem maldades; como irmão, enquanto que ele, segundo os costumes da época, poderia prendê-lo e depois castigá-lo com brutalidade. Até mesmo a crucificação era aceita.

Sendo assim, Paulo não procura forçar Filemom com palavras. Antes ele procura trabalhar o coração de Filemom com os ensinos cristãos que ele possui, deixando claro que prejuízos financeiros ele não terá (v. 19), usando com ele tom suave no argumentar (v. 8, 9) e esperando uma atitude que brote do coração de Filemom (v. 14). Portanto Paulo não o força a nada.

A epístola toma um ar de correnteza da compaixão cristã (v. 12) com uma lembrança bem usada por Paulo de certa dívida de Filemom para com ele (v. 19b) em prol da vida de Onésimo. A epístola possui notas características como "em nome do amor" (v.9), "reanima-me o coração em Cristo" (v. 20), "recebe-o como se fosse a mim mesmo" (v. 17) e "sabendo que farás mais do que estou pedindo" (v.21) deixando um ar de confiança e certeza de que seus pedidos serão atendidos. E não há como não dizer que tais pedidos não foram realizados porque se não o fossem com certeza a epístola não teria sido preservada em Colossos tal como foi.

Lugar de origem e a data

Percebe-se um cuidado com os nomes colossenses citados por Paulo nesta epístola (ver Cl 4.7-17). Percebe-se também que Paulo se encontra prisioneiro (vv. 1, 9, 10, 23). Logo esta epístola foi escrita na mesma época de Colossenses.

Argumenta-se que foi o próprio Paulo quem escreveu o bilhete a Filemom, o que descarta a idéia de que Paulo tenha sido um prisioneiro algemado, mesmo quando ele o cita em sua epístola aos colossenses (Cl 4.3, 4, 18). Paulo talvez se referisse às algemas devido a impossibilidade de pregar tal como ele queria, uma vez que ele estava preso como que por algemas. Sustenta-se a idéia de que Paulo estivesse preso como um homem em “livre custódia”, tal como era em Roma (At 28.30-31), o que lhe concedia certos privilégios e um deles era ensinar pessoalmente ou por cartas, mas com devidas restrições. Provavelmente seu lugar de aprisionamento era em ou perto de Éfeso. Isso é sustentado por dois trechos bíblicos: Um é o fato de Paulo pedir aos colossenses, através da carta a Filemom, que preparem para ele uma pousada porque parecia a ele que logo ele seria solto (v. 22), e também por parecer congruente com seus planos na ocasião de seu ministério efésio (At 19-20). Segundo registros Paulo nunca visitou a região de Colossos após sua partida de Éfeso. A situação de sua prisão e soltura fez com que ele se sentisse meio incomodado de voltar a tal região. Então ele prossegue com seu ardente plano de pregar em Roma (At 20.16, 17; cf. v.23).

Uma vez em Roma seus planos era continuar viagem até a Espanha (Rm 15.23-24, 28). Devido esse desejo nasce outra hipótese, porém mais inconstante da origem da escrita do bilhete a Filemom. Segundo estudiosos, Paulo ainda estava em Roma quase de partida para a Espanha quando encontrou com Onésimo, quando este fugia para Roma procurando anonimidade na cidade Imperial, o que seria um refúgio e início de vida para ele. Todavia este acabou se encontrando com Paulo, causando uma grande mudança nos planos do apóstolo. Talvez Paulo tenha repensado sobre a forte e falsa doutrina a que Colossos estava sendo apresentada. Paulo pode ter revisado seu itinerário quanto à visita ao vale do Lico. Ainda segundo estudiosos mais uma indicação de que a epístola tenha nascido em Roma é o fato de Lucas e Marcos estarem na lista de Paulo (v.24). Lucas estava com Paulo em Roma e não se tem indícios de que ele esteve em Éfeso. Marcos é tradicionalmente associado com Roma, não com Éfeso. Porém não se pode afirmar com tanta certeza de que tal epístola foi escrita em Roma baseando-se apenas no silêncio das maiores informações ou no vácuo de ligação entre elas. Logo, esta linha de evidência, considerada indecisiva e neutra, não caminha mais além do que isto.

Partindo do pressuposto de que quase todos os estudiosos das epístolas de Filemom e Colossenses aceitam um estreito vínculo entre ambas as cartas e de que é preferível aceitar que Paulo escreveu-as durante sua estadia na prisão de Éfeso datar-se-á então no final da década de 50. Caso opte-se por ser de Roma sua origem, datar-se-á nos anos iniciais da década de 60.

Esboço de Filemom

I- Saudação 1 - 3
II- Ação de graças em relação a Filemom 4 - 7
  A. Louvor pessoal 4
  B. Características dignas de louvor 5 - 7
III. Petição de Paulo por Onésimo 8 - 21
  A. Um pedido de aceitação 8 - 16
  B. Uma garantia de reembolso 17 - 19
  C. Uma confiança na obediência 20 - 21
IV- Preocupações pessoais 22 - 25
  A. Esperança de libertção 22
  B. Saudações 23 - 24
  C. Bênção 25

A epístola de Filemom para a atualidade

Apesar desta epístola não apresentar questões doutrinárias como as demais epístolas paulinas o bilhete a Filemom possui uma mensagem bastante forte no quesito dos relacionamentos pessoais. No século I a escravidão fazia parte do círculo natural da vida. Ninguém pensava em aboli-la. O Novo Testamento foi e é muito criticado pelo fato de não ter tido voz ativa contra a escravidão, e isso é fato. Contudo a epístola de Filemom é um "tapa de luva" quando se fala de relacionamentos entre pessoas de status diferente na sociedade. Nesta epístola não é difícil perceber como que Paulo coloca Filemom e Onésimo no mesmo nível diante de Deus. Ambos servem a Cristo, logo são tratados imparcialmente por Deus, que os vê como iguais. Nesta demonstração de igualdade é que Paulo continua trabalhando seu ideal de servidão a Deus como pode ser visto nas demais epístolas (Gl 3.28; Cl 3.11; 1 Co 7.20-24; etc). A escravidão, pelo menos para Paulo, se torna algo inútil diante da grande mensagem de salvação do Evangelho. Todavia Paulo não repreende tal prática, mas deixa pistas para reflexões do tipo "quem tem ouvidos ouça" ou "quem tem coração reflita".

É no v. 16 que está a suma da epístola. Paulo apela para que Filemom veja seu escravo não somente como tal, mas como seu irmão em Cristo, o que era extremamente difícil uma vez que escravos não eram vistos como pessoas, mas como mão-de-obra; ferramenta viva. Tal apelo leva os cristãos de hoje a repensarem sua posição social, mesmo que nos dias de hoje não se veja mais escravidão como antes. Paulo coloca que trabalho e vida social não fogem às leis evangélicas, o que deve ser refletido nos dias de hoje. Um(a) empregado(a) nunca deve ser oprimido(a) sem que antes a consciência do seu(sua) chefe passe por uma reflexão. E vice-versa. Nunca o(a) empregado(a) deve agir sem meditar no Evangelho para a conseqüente ação posterior em seu posto social e profissional. E não só nestas áreas da sociedade, mas em todas deve-se ter tal meditação.

Vale lembrar que todos são escravos do Evangelho. E mesmos escravos do Evangelho conseguem se ver livres no próprio Evangelho, no qual todos são apenas um, os quais lutam para apenas um, Nosso Senhor Jesus Cristo. À Ele a dívida de gratidão deve ser sempre paga em amor ao próximo; dívida que não se extingue; dívida que não é por troca pela salvação; nem por pagamento, mas pela provocação de se amar onde o amor não é aceito e muito menos possível. Num mundo de insanidade, a insanidade divina de se desejar algo impossível, contudo cativante, se torna o melhor dos convites, o qual, por milagre, torna-se o impossível mais praticável e desejado do mundo indo contra qualquer razão ou status.

Referências Bibliográficas


MARTIN, Ralph P. Colossenses e Filemom: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005.


CARSON, D.A., MOO, J., MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.


BÍBLIA SAGRADA Plenitude, Edição de Estudos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O livro de Colossenses: Introdução ao estudo e breve aplicação para hoje

Por Carlos Chagas

A cidade e o povo de Colossos

Colossos ficava na região sul da antiga Frígia (oeste da Turquia moderna) no vale do rio Lico. Em tempos anteriores aos dias de Paulo, autor da epístola, sabe-se que Colossos foi uma grande cidade, a qual conseguiu impedir o avanço das tropas militares do rei Xerxes. Sua importância econômica na época da epístola se resumia à fabricação de lã de carneiros, que eram pastoreados nos encostos do vale do Lico. O nome "colossense" era usado para designar uma cor específica (colossinus) de lã tingida.



Mas Colossos perdeu sua grandiosidade enquanto cidade após influências políticas pelo império romano. Laodicéia, situada a oeste de Colossos, por ter se tornado sede da administração romana, passa a se desenvolver mais rapidamente em todos os quesitos,fazendo de Colossos uma cidade de segundo e terceiro plano. Após o terremoto de 60-1 d.C., Laodicéia e Colossos foram destruídas, todavia, somente Laodicéia, apesar de não receber ajuda financeira externa, conseguiu se reerguer. Colossos jamais se reconstruiu como antes do terremoto. Além do mais fontes afirmam que Colossos sofreu mais abalos sísmicos nesta mesma época.

Devido às mudanças nos cenários econômicos, Colossos passa a depender das cidades vizinhas. Estas, por sua vez, sofreram fortes mudanças culturais. Dentre essas mudanças as religiões se transformaram completamente. A região da Frígia era marcada pela predominância de dois objetos (deuses) de culto: A deusa Cibele e a deusa Íris. A primeira era asiática e a segunda africana. O fato é que o culto a estas era marcado pelo êxtase e alegria excessivos. Também faziam parte o rigor ascético e a circuncisão. A circuncisão veio após a infiltração do judaísmo juntamente com sua teologia monoteísta, que causou um sincretismo religioso no povo colossense após o advento do cristianismo primitivo.

Com o nascimento da ideia monoteísta religiões do império adotam, cada uma, o seu deus. Apolo, Íris, Cibele, Osíris, Dionísio, Asclépio, etc são alguns dos nomes destes deuses. É nessa cultura mística e extasiante que nasce o culto ao "Deus Altíssimo" (hypsitos Theos).

Para um povo formado de indígenas frígios e gregos, de cultura involuída em sua história, em ascensão religiosa do judaísmo no âmbito de uma fusão de culturas helenistas com o rigor da religião frígia juntada a elementos religiosos iranianos e a características de um ensinamento sapiencial dos cultos de mistério é que Paulo escreve sua epístola ensinando a verdadeira e correta leitura do cristianismo para os colossenses.

A Igreja em Colossos

Segundo Atos 19.10 Paulo é o responsável pela propagação do Evangelho do Senhor na região da Ásia devido à passagem "todos os habitantes da Ásia ouviram a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos". Contudo Paulo nunca teve contato com os colossenses ao menos até o dia da composição da carta (1.4 e 2.1).

O Evangelho foi pregado por Paulo em Colossos provavelmente através de Epafras. Esse era nativo da região (4.12), tinha um bom relacionamento com os crentes dali e com os apóstolos (4.13), além de ser um bom ministro do Evangelho (1.7) e de compartilhar da prisão de Paulo (Fm 23). Devido à sua prisão a carta não pôde ser entregue por Epafras. A responsabilidade foi confiada a Tíquico (4.7-8) o qual também ficou responsável por consolar a igreja de Colossos acerca da prisão de seu pastor.

A ocasião da carta e data de sua escrita

Quando Epafras veio ter com Paulo na prisão este relatou que a igreja de Colossos estava correspondendo bem à instrução dos apóstolos (1.6) e que estavam firmes na fé (2.5-7). Para alguns estudiosos da epístola, a igreja de Colossos era muito nova, sendo esta de semanas ou, em muito, de meses de idade. Para estes 14 versículos (1.4, 5, 6, 7, 8, 9, 21, 22, 23; 2.1, 2, 5, 6, 7; 3.7, 8, 9, 10) sustentam alusões diretas à conversão dos colossenses.

Mas sobre a real questão sobre a origem da carta até hoje não se sabe ao certo. Paulo escreve em resposta às queixas de Epafras sobre uma ameaça à fé dos colossenses, ameaça esta que não se sabe, uma vez que, na carta, só se tem a refutação de Paulo frente esta ameaça. Estas advertências podem ser constatadas em 2.4, 8e 2.16.

Há ainda um pequeno grupo de estudiosos que discutem a carta ser um pseudônimo (alguém que fala por Paulo) de Paulo, o que era comum para a época. Para este grupo a heresia que ameaçava a igreja de Colossos, a qual foi refutada na epístola, possui traços de um desenvolvimento teológico pós-paulino. A linguagem na epístola, segundo os estudiosos, está longe de ser paulino. Além do mais, segundo eles, não se sabe se a epístola foi escrita nas primeiras prisões de Paulo (década de 50), ou em prisão posterior (década de 60), ou até mesmo após sua morte (ideia remota).

A ameaça à fé

Quase nada se sabe sobre a heresia que ameaçava a igreja de Colossos. Poucos indícios são encontrados na epístola. Todavia alguns versículos deixam códigos e senhas para que se entenda um pouco a situação em que se encontrava a fé cristã de Colossos frente a esta heresia: Os respectivos versículos são:

1.19 Porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude
2.18 Pretextando humildade e culto a anjos
2.21 Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro.
2.23 Rigor de devoção e auto-humilhação e severidade ao corpo

Estes versículos apontam para uma seita teosófica: Fala-se com mistério das coisas ocultas mas com uma determinada ciência e sabedoria. Muitos estudiosos da era primitiva da igreja mencionam que havia em Roma, uma religião com traços que se identificam com os versículos acima. Essa religião é conhecida como gnosticismo. Contudo o gnosticismo só se torna uma religião conhecida após 122 d.C., o que deixa claro que não é ainda esta religião que é descrita nos versos acima. Mas apesar de o gnosticismo ser a religião combatida por Paulo ainda fica a possibilidade de ser o nascimento desta na região de Colossos, nascimento este conhecido como proto-gnosticismo. Estudiosos apontam que no proto-gnosticismo já haviam compreensões que se encaixam nas refutações de Paulo na epístola.

O gnosticismo crê que existe um desejo eficaz de se ter relacionamentos com o Poder que se manifesta no universo. Para o gnosticismo a plenitude de Deus é distribuída por uma série de emanações do divino, estendendo-se do céu à terra. Estes "eões", ou elos, ou rebentos da divindade deviam ser venerados e homenageados como "espíritos elementares" ou anjos, ou deuses, que habitavam nas estrelas. Regem o destino dos homens e controlam a vida humana, e detém no seu poder a entrada no reino divino. Cristo é um deles, mas apenas um entre muitos.

Se realmente for o proto-gnosticismo a heresia que atormentava a fé cristã dos colossenses fica fácil compreender certas passagens da epístola. Para uma pessoa ter contato com esta plenitude divina geralmente o adepto se entregava a uma disciplina ascética rigorosa de abnegação. Abstinha-se de comidas e bebidas; observância dos ritos de iniciação e de purificação; e possivelmente uma vida de celibato e de mortificação do corpo humano. Tudo isso é combatido por Paulo (2.20-23). Entretanto ainda não se pode afirmar que é o proto-gnosticismo a heresia que ameaçou a fé dos colossenses.

A filosofia colossense

Dois termos são usados para identificar o falso ensino introduzido em Colossos: "Filosofia" (2.8) e "piedade forçada" (2.23). Tais palavras herdam da astrologia persa-caldeia, dos mistérios orientais-helenistas e da especulação gnóstica elementos teológicos, demonológicos e termos achados nos conceitos astrais dos mesmos. Paulo trabalha essa "filosofia" empregando algumas palavras como: Stoicheia, o culto da veneração aos anjos e a defesa da "humildade" como parte da "severidade ao corpo".

a) Stoicheia (2.8, 20): O significado mais preciso é "objetos que ficam numa fileira ou que formam uma série". O exemplo primitivo para se explicar esse termo é o alfabeto: Colocando letra por letra até formar uma linha com uma escrita inteligível ao homem. Aprimorando a explicação do termo é como se o universo obtivesse uma possibilidade de organizar as coisas para a melhor explicação do mesmo. Para isso necessita-se inteligência, pré-condicionamento e sabedoria.

Estas Stoicheia eram usadas pelos primeiros filósofos como tentativa de explicar o acaso, o oculto. Para eles a criação possui um sentido que só pode ser encontrado quando esse oculto se revela. Assim, basta ao homem se entregar em humildade e sabedoria para entender. Sendo assim, Paulo luta para explicar aos colossenses que tudo foi criado pelo Cristo cósmico (1.16, 17) e que essas Stoicheia nada mais são do que conceitos tiranos e astrológicos que tentam controlar as vidas humanas como joguetes do destino.

O apóstolo trabalha então a questão de que Cristo possui vitória sobre esses agentes demoníacos (Stoicheia) (2.15) e na liberdade do cristão diante deles (2.20). Todas as coisas estão sujeitas a Cristo (1.15ss) logo a plenitude das coisas está em Cristo e não nestas forças cósmicas (1.19; 2.9). Quanto às referências sobre a circuncisão em 2.11 e sobre a dieta e calendário de 2.16 não têm ligação com o judaísmo a não ser questões referentes ao sábado. A palavra Stoicheia usada em Colossenses é diferente em significado e sentido da de Gálatas 4.8-10, já que este último é referente aos judaizantes. (ver meu artigo sobre a epístola de Gálatas). A prática do ascetismo fazia parte da disciplina e sobre o "culto dos anjos" (2.18) à filosofia do sistema teosófico que venerava divindades que habitavam nas estrelas.

b) A alusão em 2.18 ao "culto dos anjos" parece vir de judeus sectários de Colossos com uma angelologia altamente desenvolvida e pouco ortodoxa. O que sustenta essa teoria sobre sectários judeus são as descobertas das cavernas de Qumrã, onde se encontrou relatos de um judeu desta época que praticava rituais tipicamente judaicos mas com características altamente individualistas que adotavam crenças e padrões ebionitas judaicos-cristãos com uma angelologia diferenciada. Paulo combate tal culto em 2.15 e 2.20.

c) Havia uma espécie de doutrina platônica que separava o Deus supremo da criação. Para contato com esse Deus é preciso que o homem se liberte da influência maligna e das coisas materiais. Juntamente com esse platonismo os Colossenses eram submetidos a duas rotas para a "libertação" do mal: Uma era a negação de tudo que era considerado carnal e material, já que para este grupo gnóstico o corpo possui tendências lascivas, instintos e apetites (que fazem parte da matéria) que são prejudiciais e atrapalham o homem na sua busca por salvação. Nasce então em Colossos a tendência ao ascetismo rigoroso, onde o homem se privava de alimentação, desejos e até mesmo da relação sexual entre marido e mulher. Diante disso Paulo adverte os colossenses a não se privarem para aquilo que já não mais serve (2.21-23). Paulo alerta que tais práticas são usadas para preparar o iniciado a entrar num estado de transe para conceber visões celestiais (2.18) e que são nada mais que conhecimento vão e que servem apenas, mesmo parecendo contraditório, para enfatizar as obras da carne. Tais práticas parecem ter ligação com o legalismo judaico já que indícios são encontrados em 2.11, 16, 21-22.

Já a outra rota para "libertação" do mal não se destaca tanto na epístola, mas estudiosos conseguiram destacá-la. Esta prega que como o corpo é indiferente às questões religiosas não precisava de observâncias a ele. Logo abria uma espécie de libertinismo, dando a liberdade incondicional para seus adeptos para que realizem todos os desejos que acharem necessários. Essa rota para a suposta "libertação" pode ser vista sendo combatida por Paulo na passagem do capítulo 3.5-11. Sendo assim, Paulo busca um equilíbrio na sociedade colossense.

Conclui-se então que a região da Frígia era uma região que possuía tanto um contato com o judaísmo de livre pensamento (da Dispersão), quanto ideias especulativas das religiões de mistério gregas buscando uma relação entre si.

Paulo e seu objetivo

Após entender, mesmo que de forma simples, a doutrina que permeava os ensinos em Colossos, podemos então ter idéia da dimensão e propósito do ensino de Paulo aos colossenses em sua epístola. Eis a seguir um resumo das principais posições do apóstolo:

a) Seu ensino tem uma ênfase cristológica. Para Paulo a falsa doutrina corta a comunhão do homem com Deus. Cristo é que é o intermediador entre ambos. Cristo é o cabeça da igreja (2.19). Para Paulo o erro é tanto teológico, por colocar Cristo como mais um mediador como os demais, quanto prático, por despertar a incerteza religiosa ao dizer que Cristo não possui a “plenitude da vida” (2.9-10).

Paulo busca trabalhar a inter-relação entre o Senhor e a Igreja. Em 1.15-20 Paulo demonstra que Deus é o agente cósmico da Criação (1.15-17) e quem restaura a harmonia entre Ele mesmo e sua Criação (1.18-20). Portanto para o apóstolo não é possível qualquer intervenção entre Cristo e Deus, e entre Cristo e o mundo e a Igreja.

A obra reconciliadora de Cristo em Colossenses destaca Cristo como responsável pela existência de tudo (1.16) e como vitorioso após sua morte e ressurreição, tornando-se o soberano sobre todas as hostes demoníacas, angelicais e poderosas do mundo (2.10). Sua ressurreição o tornou preeminente (1.18) tendo ganho a vitória sobre todos os poderes malignos que o homem do I século mais temia (2.15). Logo Paulo mostra que Deus, por mais que seja santo e/ou espiritual, não é inacessível como o gnosticismo pregava e que Jesus, apesar de sua santidade, também foi homem, não negando sua matéria; seu corpo.

b) Paulo apela para a separação do “ministério dos homens” (2.22) do ministério da verdade” (2.6ss). Após traduzir o grego para as línguas da atualidade perdeu-se a qualidade nas palavras de Paulo. Há um jogo de significados nestas quando Paulo as emprega. Paulo usa Paradosis (2.8) e Didaskalia (2.22) para se referir aos ensinos humanos e Parelabete, Paradidonai (p.e. 1 Co 11.23, 15.3) e Edidachthête (2.7). Paulo demonstra que por mais que haja sabedoria nos ensinos ocultos e gnósticos eles são apenas ensinos humanos em comparação com o verdadeiro ensino que vem de Cristo.

c) O apóstolo Paulo vê os tabus dietéticos e práticas ascéticas como uma ameaça à carta magna do cristianismo que é a liberdade do cristão que está na morte e ressurreição de Cristo. Para Paulo a verdadeira qualidade do cristão é viver sem o embaraço de regras ou regulamentos feitos por homens (2.22), os quais pertencem à sombra do que havia de vir e que agora se torna passado (2.17).

Paulo coloca que a verdadeira “religião” é Cristo e o motivo principal da moral é uma experiência de morte e ressurreição (simbolizada numa morte de fé no batismo) em que a velha natureza morre para o próprio-eu e para o pecado, e a nova natureza é recebida como uma dádiva de Deus (2.11-13; 3.9-12). Essa nova humanidade é Cristo-vivendo-no-Seu-corpo, a Igreja, que fornece a definição da moralidade como também o poder motivante de se viver como uma família de Deus. Os conselhos de Paulo no capítulo 3 exortam os cristãos a buscarem uma auto-disciplina verdadeira e uma relação verdadeira entre os relacionamentos na igreja e na sociedade, que são chamados “em um só corpo” (3.15), sendo que o amor dá coerência a todas as qualidade éticas que caracterizam esse novo estilo de vida (3.11, 12).


Sobre a autenticidade da carta

Fica claro na epístola que Paulo não possuía com os colossenses a mesma intimidade que ele tinha com os gálatas. Paulo era mais íntimo destes uma vez que ele fundou a igreja e nutria uma grande responsabilidade por eles (Gl 1.6; 4.12-20) o que lhe permitia um diálogo mais doutrinário e ríspido, com exortações severas e posicionamento rígido. O que não é o mesmo com a igreja de Colossos, já que Paulo os conhecia apenas de longe. Mas nem por isso Paulo deixou de ensinar aos colossenses a doutrina cristã. Contudo o apóstolo se deteve apenas em combater a falsa doutrina, nada mais.

Data da epístola

Não se tem muita precisão sobre quando a carta foi escrita já que não se tem conclusões do lugar onde Paulo esteve preso. Se foi em Roma o local de sua prisão tem-se uma data no início dos anos 60. Mas se for outra cidade provavelmente a data será no final dos anos 50.

Esboço de Colossenses

I- Introdução 1.1-14
  A. Saudação 1.1-2
  B. Oração de louvor pela fé dos colossenses 1.3-8
  C. Oração de petição pelo crescimento deles em Cristo 1.9-14
II- Apresentação da Supremacia de Cristo 1.15 - 2.7  A. Na Criação 1.15-17
  B. Na Igreja 1.18
  C. Na Reconciliação 1.19-23
  D. No Ministério de Paulo1.24 - 2.7
III. Defesa da Supremacia e Suficiência de Cristo 2.8-23
  A. Contra a Falsa Filosofia 2.8-15
  B. Contra o Legalismo 2.16-17
  C. Contra o Louvor aos Anjos 2.18-19
  D. Contra o Ascetismo 2.20-23
IV-  Supremacia de Cristo exigida na Vida Cristã 3.1 - 4.6
  A. Em Relação a Cristo 3.1-8
  B. Em Relação à Igreja Local 3.9-17
  C. Em Relação à família 3.18-21
  D. Em Relação ao Trabalho 3.22 - 4,1
  E. Em Relação à Sociedade Não-Cristã 4.2-6
V- Conclusão 4.7-18
  A. Companheiros de Paulo 4.7-9
  B. Saudações Finais 4.10-15
  C. Exortações e Bênção Finais 4.16-18

A epístola de Colossenses para a atualidade
Os "falsos mestres" colocaram uma barreira entre o povo de Colossos e Deus. E essa barreira só era vencida através do ascetismo exagerado e/ou pela entrega à sorte permitindo a libertinagem, porém esta última não foi tão forte quanto a primeira. Diante disso Paulo ressalta a figura de Cristo como o mediador entre o homem e Deus, explicando que Ele está acima de toda a criação. Ele é destacado como o cabeça da Igreja pelo derramar de seu próprio sangue em favor de todos (1.15-20). Essa combinação de explicações deixa claro que qualquer tentativa meritória para se alcançar Deus, tal como o ascetismo, é vã, sem conclusões e tola.

Em algumas igrejas cristãs são encontrados alguns tipos de ascetismos que são extremamente exagerados. Algumas pessoas deixam de comer por dias, outras sem ingerir qualquer tipo de líquido, e algumas cometem até mesmo o suicídio social, se retirando por completo da teia social que permeia a todos. A prática disso ainda não é o problema, no sentido cristão da coisa. O problema é quando tais práticas buscam uma justificação ou pagamento pela salvação alcançada. A carta de colosenses é contra isso.

Outro problema é quando se tem a ideia de que o corpo humano é a raiz do mal, ou quando o corpo humano (carne) é impura ou o próprio mal. É nessa epístola que se encontram passagens que vão contra tais pensamentos. Primeiro é o fato de Paulo dizer que Cristo veio como homem (1.15-20) e é neste que se encontra toda a sabedoria e conhecimento (2.3). E é em Cristo que os crentes recebem a plenitude (2.10) ainda em vida, ou seja, na carne. O maior sacrifício está no morrer para ele (2.20) e ressuscitar com ele (3.1). Logo, o que se destaca é o amor de Cristo, ainda em carne, para com os seus, chegando até derramar seu próprio sangue.

Ainda nos dias de hoje, apesar do crescente ceticismo que permeia a sociedade ocidental, existem igrejas e, em especial no Brasil, que ainda acreditam que poderes malignos são, ou mais fortes, ou do mesmo nível dos poderes divinos. A demonstração disso pode ser vista nos teatros feitos pelos evangelistas do Brasil onde a figura de Satanás está em pé de guerra com Jesus, onde aquele é derrotado por este após sua morte na cruz. Sabe-se que essa ideia é, de certa forma, inconsciente no meio evangélico brasileiro, mas também é inegável. Sabe-se que Jesus sempre foi o mesmo; é imutável e acronológico (fora do tempo). É diante dessa ideia de super-poderes das trevas que Paulo destaca a supremacia e preeminência de Cristo sobre TODA a criação, desde o pó, passando sobre anjos e demônios, até a humanidade.

O fato de Paulo não conhecer os colossenses em carne e osso (2.1) serve para mostrar o quanto é importante enxergar que todos os crentes formam uma única igreja. Numa era onde o individualismo e o sistema tribal tem se instalado, a releitura da epístola se faz necessária. Essa ênfase que Paulo dá à unidade da igreja fica também as ricas instruções de Paulo para esposos e esposas, filhos e pais, e escravos e senhores (3.18 - 4.1) para o aprimoramento da unidade. Essas orientações se dividem em dois grupos: Família e Trabalho. E são esses dois grupos que mais têm sofrido degradações nos últimos tempos. A família é algo que já não mais tem valor na sociedade pós-moderna. E o trabalho já não é respeitado nem pelos patrões, que exigem além do possível de seus funcionários, e nem pelos funcionários, que desonram sua posição de empregado se tornando um baderneiro, ladrão ou irresponsável quando este defrauda seu local de trabalho.

A degradação da família e do trabalho tem a ver com as filosofias de vida presentes nos dias de hoje. Sempre em todas as gerações cristãos sofreram, sofrem e sofrerão tentações em adequarem ao novo sistema pregado pela nova ordem do mundo. E assim como foi na época da epístola de Colossenses, assim também deve ser hoje. Todos não devem desprezar os ensinos de Paulo quando este diz que nenhuma filosofia venha tomar lugar de Cristo. É sempre oportuna a advertência paulina sobre "filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo" (2.8). Ao mesmo tempo deve-se dar ouvidos às advertências sobre práticas religiosas que desviam a atenção, a observância de festas religiosas que detraem daquilo que é fundamental (2.16) e o costume de fazer das regras a essência da religião (2.20-21). Essas práticas geram uma humildade falsa e na realidade promovem a falta de espiritualidade (2.18). Nada pode compensar a perda de contato com a Cabeça da Igreja (2.19) que é Cristo Jesus, Nosso Senhor.

Referências Bibliográficas

MARTIN, Ralph P. Colossenses e Filemon: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005.

CARSON, D.A., MOO, J., MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

BÍBLIA SAGRADA Plenitude, Edição de Estudos.

domingo, 25 de abril de 2010

O livro de Gálatas: Introdução ao estudo e breve aplicação para hoje

Por Carlos Chagas

Sobre o Autor

Muito se discutiu através dos estudos da epístola de Gálatas sobre quem a escreveu. Mas após análises profundas chegou-se a conclusão de que é realmente Paulo e não um pseudônimo quem escreveu o livro. Um dos fortes indícios é o estilo literário latente no livro. Quanto a Paulo, a própria epístola destaca sobre a pessoa de Paulo. Sabe-se que Paulo não era uma pessoa rasa na sua vida pré-cristã. Este era judeu e ele próprio sabia que era mais "avantajado" que os demais contemporâneos. Contudo sua modéstia o refreou (1.14). Paulo não escreve para desconhecidos. Muitos gálatas o conhecia em sua época pré-cristã (1.13). Paulo descreve detalhadamente sua conversão além de se declarar pregador (1.15-16) de um Evangelho que não era de feitura humana (1.11). Este recebeu o Evangelho mediante revelação (1.12). Paulo deixa claro que: Pregou o Evangelho em suma consciência (2.2); anunciou o Cristo crucificado (3.1) e que demonstrou ter enfermidades na sua primeira pregação entre os gálatas (4.13).

Quanto à sua peregrinação missionária Paulo passou um tempo na Arábia e relata sua volta a Damasco (1.17). Esteve em Jerusalém (1.18 e 2.1) mas não há precisão de data. Parece ter ligeiro conhecimento das igrejas na Judéia (1.22-23) mas nega conhecimento pesoal delas. Ele cita também a Síria e Cilícia, mas aparentemente não esteve ali (Cf At 15.41).

Sobre sua experiência cristã a epístola deixa claro sua profundidade. Ele se considera "servo" de Cristo (1.10) e, apesar de ter o título de apóstolo se coloca em posição de humilhação. Foi liberto da Lei mas continua escravo de Cristo. É sobre essa antítese Lei x Graça que Paulo constrói a "coluna cervical" da epístola.

Nesta epístola fica claro as características humanas de Paulo: Fica atônito com a apostasia de seus leitores (1.6); teme que seu trabalho tenha sido em vão e se demonstra decepcionado (4.11); mostra-se perplexo (4.20); se demonstra claro e insistente em palavras nas suas explicações (1.9); não teme a autoridade de Pedro e repreende-o em público (2.14) e se torna radical contra os que pervertem o Evangelho (5.12).

Por fim, Paulo se demonstra um teólogo de ação e não de poltrona como hoje. Possuía uma enfermidade que não se dá para saber ao certo o que era (4.13), todavia esta enfermidade causou-lhe uma transformação desagradável em sua aparência pois elogia os gálatas por não desprezá-lo (4.14). Sobre sua possível oftalmia, doença que é cogitada por alguns como Calvino, no versículo 4.15 parece ser apenas uma figura de linguagem usada por Paulo. E quanto às letras grandes usadas por Paulo no final da epístola serve tanto para reforçar a teoria da oftalmia quanto para uma abertura para outras interpretações.

O estilo da epístola

A epístola de Gálatas difere das demais epístolas paulinas no que diz respeito ao envolvimento do autor com as palavras empregadas. A grande riqueza encontrada na epístola é o uso de figuras de linguagem. Existem mais figuras de linguagem em Gálatas do que nas demais epístolas. Eis algumas: O olhar que fascina (3.1); a exposição de notícias (3.1); a função do aio (3.24); o jugo (5.1); o parto (4.19); a competição esportiva (5.7); o fermento (5.9); o escândalo, ou pedra de tropeço (5.11); a cidade dos animais selvagens (5.15); a colheita dos frutos (5.22); o processo de semear e ceifar (6.7); a família (6.10) e o processo de ferretear (6.17).

Outra característica da epístola é o número de perguntas retóricas. Estas se concentram mais na porção central doutrinária (caps. 3 e 4). Destaca-se também o jogo de cintura de Paulo mediante situações de correção. Ora Paulo chama os gálatas de "irmãos" (1.11, 3.15, 4.12, 28, etc) ora de "insensatos" (3.1). Um toque ainda mais carinhoso aparece em 4.19 onde o apóstolo chama-os de "meus filhos".

Paulo se identifica com os seus leitores já que usa a primeira pessoa do plural cerca de 70 vezes.

Propósito da epístola

Esta epístola deixa claro as intenções de Paulo para com seus leitores. Na epístola exitem três diferentes grupos envolvidos na situação dos quais Paulo considera.

O primeiro grupo é formado de pessoas com as quais Paulo já possuía um relacionamento prévio (1.8, 9; 4.13). Paulo se demonstra extremamente voltado em amor para com estes (4.15) e satisfeito com a revolucionária transformação do povo gálata de pagão para cristão (4.8). Talvez o amor de Paulo para com este grupo se deu pelo fato de este acolher amorosamente Paulo em sua cansativa viagem somada à sua enfermidade (4.14).

O segundo grupo é o apostólico em Jerusalém. Paulo deixa claro sua dificuldade com este grupo quando este tenta se sobrepor aos ensinos de Paulo com se o apóstolo tivesse menor autoridade. Diante disso Paulo se coloca no mesmo nível (1.1) dos apóstolos do ministério de "carne e sangue" (1.16). Certo desentendimento teológico houve entre Paulo e este grupo (2.11-14) que tinha Pedro e, mais tarde Tiago, como líderes. Paulo se refere aos apóstolos como "colunas" (2.9).

O terceiro grupo era os judaizantes. Várias alusões são feitas a eles por Paulo, porém sem nada de mais definido. A primeira referência é 1.7 onde se diz que o grupo quer perverter o Evangelho. Outra refrência é 1.9, contudo esta é mais vaga, sem muitos detalhes. Em 3.10 Paulo faz uma declaração acerca de "todos quantos são das obras da Lei", referind-se ao grupo. Outra passagem importante está em 5.2 em diante quando o apóstolo trabalha os gálatas no seu desvio de fé. Fica claro que um dos assuntos que Paulo enfrenta é a circuncisão (6.12).

O apóstolo luta contra estes que tentam atrapalhar seus ensinos. Paulo vê o movimento como sendo escravizante. Na epístola não fica claro quantos participam do movimento e nem quem são os líderes judaizantes, contudo presume-se que são da Galácia. Fica evidente que fazem parte da igreja local, embora entraram de forma clandestina.

A questão dos judaizantes pode ser considerada comum para aquela época, principalmente o quesito da circuncisão. A circuncisão era sinal de uma aliança que trazia status, posição de privilégio, além de ser algo obrigatório no Antigo Testamento. Muitos cristãos primitivos, antes de sua conversão, foram condicionados a estes pensamentos, o que deixa margem para se pensar que tentaram condicionar a igreja também. Contudo o movimento era comum, mas seus resultados poderiam ser catastróficos para o cristianismo nascente. Os gálatas eram muito sinceros; perigosamente sinceros, a ponto de pregarem as doutrinas judaizantes com afinco. Se Paulo não intervisse com certeza o cristianismo seria considerado mais uma simples seita do judaísmo. Portanto, o propósito da epístola é trabalhar os gálatas sobre o perigo iminente. Sendo assim, Paulo adota os seguintes pontos:
  1. Paulo faz uma abordagem histórica: Paulo refuta a idéia legalista dizendo ter apoio dos "colunas" da igreja (1.1 - 2.14). Logo isso valeu como uma abordagem doutrinária mais importante, a qual coloca Paulo como importante também, mas em segundo plano, ou seja, a doutrina é maior.
  2. Paulo trabalha seu próprio testemunho (2.15-21).
  3. Paulo trabalha a experiência dos próprios gálatas (3.1-5). O apóstolo relembra-os dos milagres realizados pelo Espírito desafiando-os então a uma série de perguntas.
  4. Como a doutrina legalista dos judaizantes nasce da Lei mosaica do Antigo Testamento, Paulo apela também para o Antigo Testamento (3.6-18) citando Abraão como exemplo de que a promessa de Deus feita a ele era superior à lei. O apóstolo então fala da maldição da lei e da salvação de Cristo, que se fez maldição após cumprir a lei, que é interpretado por Paulo como sendo o retorno à fé de Abraão, que, como foi dito, é superior à lei. O apóstolo também não isenta argumentos que são baseados em considerações gramaticais (3.16).
  5. Em seguida é trabalhada a questão da temporária função da lei e a função permanente da fé (3.19-29) juntamente com a consideração de que os que são da lei são apenas servos, mas os que são da fé são filhos de Deus.
  6. Assim, o apóstolo os adverte contra o retorno às coisas antigas, que seria voltar à condição de escravos (4.8-20).
  7. Por fim, o método alegórico foi usado para ilustrar o ensino. Talvez nõ faça sentido hoje, numa época onde a ciência racional predomina, mas para aquela época tal ato significou grande aprendizado e compreensão.
Paulotermina seu argumento doutrinário com uma frase citada quase no fim da carta em 5.1: "Para a liberdade foi que Cristo nos libertou", onde ele deixa claro qual é a maior qualidade do cristianismo.

Data da Epístola

Muitos preferem dizer que Paulo escreveu a carta durante a fome de At 11.30, logo, por volta de 55 ou 56 d.C. Mas a grande pergunta é se Paulo escreveu a carta antes ou depois do concílio de Jerusalém de At 15, que provavelmente foi em 48 d.C. Se a data do concílio estiver correta, foi antes de 48.

Esboço de Gálatas

I- Introdução 1.1-10
  A. Saudação 1.1-5
  B. Deserção dos gálatas 1.6-7
  C. Denúncia contra os judaizantes 1.8-9
  D. Declaração da integridade de Paulo 1.10
II- Biografia: Paulo defende sua autoridade 1.11 - 2.21
  A. A fonte de sua autoridade 1.11-24
  B. O reconhecimento de sua autoridade 2.1-10
  C. A manifestação de sua autoridade 2.11-21
III. Doutrina: Paulo defende seu Evangelho 3.1 - 4.31
  A. Com discussão 3.1 - 4.11
     1. Experiência dos gálatas 3.1-5
     2. Doutrina do AT 3.6-14
     3. Caráter da aliança com Abraão 3.15-18
     4. Propósito da Lei 3.19-24
     5. Status daqueles que estão em Cristo 3.25 - 4.7
     6. Insensatez de reverter-se ao legalismo 4.8-11
  B. Por apelo
     1. Com base na afeição deles por Paulo 4.12-18
     2. Com base na afeição de Paulo por eles 4.19-20
  C. Por alegoria 4.21-31
IV- Prática: Paulo exorta os gálatas 5.1 - 6.10
  A. A usarem adequadamente sua liberdade cristã 5.1-15
  B. A caminharem através do Espírito 5.16-26
  C. A carregarem os fardos dos outros 6.1-10
V. Conclusão 6.11-18
  A. Advertência contra os legalistas 6.11-13
  B. Centralidade da cruz 6.14-16
  C. Marcas de um apóstolo 6.17
  D. Bênção 6.18

A epístola de Gálatas para a atualidade

Talvez, numa primeira leitura de Gálatas, seja difícil destacar pontos importantes de Gálatas para os dias atuais. Parece antiquado o texto se for aplicado hoje. Contudo a epístola de Gálatas é rica na apresentação de princípios cristãos. E se caso esses princípios forem destacados num estudo mais elaborado com certeza a epístola de Gálatas apresentará relevância para os dias de hoje.

Essa relevância foi crucial na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, quando os reformadores releram Gálatas achando argumentos que foram contra o pensamento vigente da época. Para os reformadores a epístola possui uma extrema valorização da fé contra a lei no âmbito de salvação. Logo, se uma releitura de Gálatas com uma aplicação de eisegese foi crucial para o surgimento dos protestantes porque não seria ainda hoje?

Portanto, se for destacado alguns pontos (problemas) a serem pensados hoje virão à tona os seguintes:

a) Uma advertência contra o legalismo: Nos dias atuais ainda se vê o problema na sistematização das idéias sobre a salvação do homem. No início da era moderna os protestantes foram contra a igreja católica porque esta impunha a salvação por meio de obras, leis, dogmas e práticas. Os protestantes eram contra porque, após a leitura de Gálatas, perceberam que a salvação vem pela fé e tão-somente por esta. Para os católicos da época (e de hoje???) a salvação só é possível pela intermediação de um sacerdote (padre, bispo, papa, etc.) e de ritos. Para os protestantes somente pela fé em Cristo. Logo, para os católicos existem obras para que venha a salvação e para os protestantes existem as obras porque houve a salvação. As obras, segundo os protestantes, vieram porque uma vez que o homem foi salvo pode trabalhar essa salvação para o outro afim de que este outro sofra uma benevolência como fruto do amor da salvação divina. Essa interpretação só foi possível através da leitura de Gálatas. Para Paulo, a salvação só poderia resultar da fé pessoal, o que tornava o cristianismo um fator vivo e poderoso. Para Paulo, voltar ao legalismo é o mesmo que matar novamente Cristo e, dessa maneira, negar a primazia da fé.

Nos dias de hoje, mais especificamente nas igrejas evangélicas do Brasil, o legalismo tem tomado conta quando o assunto é salvação. A teologia protestante tem sido abandonada por estas, que adotaram uma crença popular rasa que associa a fé em Cristo com a necessidade de confirmação da salvação através das obras. Para muitas igrejas é obrigatório entregar o dízimo, jejuar 1 vez por semana, ir ao culto ao menos 1 vez por semana, etc,  para que seja salvo, o que nega o que Paulo tanto ensinou aos gálatas como forma de ativação do cristianismo dinâmico. Para a salvação basta fé e para as obras basta amor. A volta à legalidade pelas igrejas evangélicas é totalmente contrária ao Evangelho pregado por Jesus Cristo e por Paulo. Nada se deve fazer para a salvação a não ser crer. Essa crença trará como fruto o arrependimento e este arrependimento também não é necessário para a salvação pois já é resultado de uma vida salva. Assim, o salvo entende que as boas obras o acompanha porque só o salvo entende que estas são necessárias para agradar seu coração sedento de amor. Essa é a mensagem de salvação de Gálatas.

b) Uma advertência contra o subjetivismo nocivo: Ao contrário do legalismo, que visa traçar metas invioláveis, ou pelo menos para que não se viole, a negação do legalismo pode levar ao subjetivismo nocivo. Em outras palavras, a negação do legalismo pode levar o homem a fazer tantas leituras e aplicações com o texto de Gálatas, que culminaria em uma espécie de liberdade impensada, onde muitos sairiam prejudicados; uma espécie de libertinagem. Contudo ainda assim a epístola de Gálatas coloca a importância de não seguir o egoísmo. Em 5.13 a epístola exige que não se ande segunda a carne. Em 5..2 Paulo afirma que o amor é o primeiro fruto do Espírito. E por fim, a epístola deixa claro que o serviço prestado a outros é mais importante que para si mesmo (5.13-14).

c) O uso do Antigo Testamento: Nos dias atuais as igrejas evangélicas brasileiras têm usado com desregramento os textos do Antigo Testamento como forma de doutrinação. O que a epístola deixa claro é que o mesmo deve ser usado para confirmar o Novo Testamento. As doutrinas criadas não podem ir contra a cultura que Cristo deixou. Ainda sobre o uso do Antigo Testamento fica claro que Paulo citou textos, usou linguagem típica do AT e usou personagens do AT com uma história alegórica. Fica clara a forma criativa que Paulo usou contra os problemas dos gálatas. Isso também é valoroso para hoje.

CONCLUSÃO

Esta carta tem sido descrita, com razão, como sendo a carta magna da liberdade cristã, e enquanto seus ensinamentos forem obedecidos, o cristianismo jamais ficará sujeito a qualquer tipo de servidão.

Referências Bibliográficas

GUTHRIE, Donald. Gálatas: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005.

CARSON, D.A., MOO, J., MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

BÍBLIA SAGRADA Plenitude, Edição de Estudos.