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terça-feira, 9 de junho de 2015

Comum busca da verdade

Carlos Chagas

Este artigo faz parte da série O que é ser cristão? Caso queira acessar o índice clique aqui.


Analisando mais a fundo as religiões percebe-se uma busca pela verdade de forma um tanto quanto isolada. Mas a exemplo do Maoismo, que buscou do Confucionismo a ideia de educação humana com o objetivo de aperfeiçoamento, não seria também eficaz, para as demais religiões que entre elas houvesse troca de informações e valores sem perder suas singularidades? Se o cristianismo praticasse tal coisa sua visão sobre a Trindade não seria tão antropomórfica como a visão trans pessoal das religiões asiáticas. Baseando-se na fé chinesa a fé cristã seria menos humanista e mais concreta e, ao se inspirar no islamismo seu racismo seria mais controlado e seu respeito pelos povos antigos mais notório.

O cristianismo, que nasceu no oriente, é por demais ocidental e na sua busca de transformação alheia mais latiniza, americaniza, ocidentaliza e cristianiza que evangeliza. Nessa busca de envolvimento com os valores religiosos externos o cristianismo poderia levar às demais religiões não só o exemplo mas o fator Cristo para as mesmas, já que a prática de Cristo não se vê em outras religiões. Algo a se pensar para o futuro seria um cristianismo singular mas envolvente, ecumênico mas não passivo, que testemunhe sua fé em palavra e ação, com missão tolerante e, ao mesmo tempo, disposta à revisão do próprio ponto de vista quando necessário.

O cristianismo, em sua busca da verdade, deveria ser aberto à sensibilidade. Deixando os dogmas à parte deveria encontrar explicações para onde estes não alcançam. A filiação de Jesus a Deus Pai deveria ser menos maciça em termos helenísticos a fim de conquistar os muçulmanos, na concepção do pecado original de Agostinho deveria existir um contraponto a ser levado em consideração para que o diálogo com um confucionista seja mais plausível, já que este acredita na bondade do homem, e assim por diante.

Sabe-se que muitos problemas na evangelização de povos orientais se encontram na concepção teológica cristã. E por causa disso, cabe a tão comente o cristianismo quebrar tal barreira, sabendo que um teólogo cristão, para conseguir tal façanha, deixará de lado sua busca perfeita de compreensão sistemática da fé para uma abertura ao campo de Ciência das Religiões, já que praticar ambos é algo por demais pesado e difícil. Talvez assim, certas concepções tendenciosas do cristianismo seriam modificadas e, com isso, uma maior abertura no alcance da evangelização seria mais eficaz, sem com isso perder sua singularidade de fé.

Perceber-se-ia então que a verdade pode ir mais além do que já foi. A abertura ao diálogo seria algo que traria de volta a singeleza da religião, que convenceu a tantos em seus primeiros passos e que é cobrada nos dias atuais, já que religião não é algo teórico ou algum tipo de monumento histórico que pode ser estudado e avaliado por sábio, mas é a atitude viva de fé sempre vivida no fluir da história por homens de carne e osso. Logo, não é uma interpretação que fica para a história passada, mas que interpreta a forma de se viver de hoje em diante.

Deve-se tratar das verdades, sejam estas cristãs ou não, afinal, todos estão em busca destas verdades, e somente assim o cristianismo poderá dizer que é uma religião universal. E, falando de cristianismo e colocando-o como uma religião inegável e, por conseguinte, dizendo que ela é catalisadora das demais, tendo até agora, mostrado que ela é melhor que os humanismos já falados aqui e que as religiões mundiais têm a aprender desta, o que afinal é ser cristão? O que o define? Veremos adiante.


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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ser cristão, catalisador crítico

Por Carlos Chagas


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Portanto, se o cristianismo, enquanto religião precisou se adequar ao mundo sem perder sua singularidade assim também devem ser as demais religiões. Mas tais mudanças não devem ser estereotipadas como o foi nos movimentos sociais já comentados aqui de antemão, mas que tais mudanças repensem a forma de ser de hoje para o amanhã. 

Assim o cristianismo serve como modelo para as demais religiões, as quais devem visar neste: 


- O não-domínio de uma religião, mas a busca de uma singularidade que não visa o proselitismo e nem a arrogância de mera existência; 

- A negação do sincretismo mas a busca pelo mesmo objetivo, a saber, o bem. 

- As religiões devem ser, nas palavras de Küng aquela “...que não renega as próprias convicções religiosas, como também não impõe nenhuma solução determinada: que transforma a crítica alheia em autocrítica e, simultaneamente, aceita tudo que for positivo; que nada destrói que tiver valor nas religiões, como não assimila acriticamente nada que não tenha valor”. 

Desse modo, ser cristão seria uma forma de lutar não pela religião (título) mas pela qualidade de ser cristão, que é ser humanizado. Tal diálogo visaria o respeito das partes sem buscar mudanças egoístas, o que destacaria a qualidade de ser religioso não importando a especificação religiosa. Lutar-se-ia assim contra o absolutismo arrogante que despreza a riqueza alheia por puro egoísmo, contra o ecletismo irresponsável, que aceito de tudo um pouco e valorizar-se-ia não a exclusividade, mas a singularidade de ser. 

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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Não exclusividade, mas singularidade

Por Carlos Chagas

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É fato que a falta de compromisso com os princípios religiosos bem como a apatia social e falta de compromisso com o futuro fazem da religião algo descartável e, talvez, nunca necessário. Mas especificamente o cristianismo perde seu valor quando valoriza o poder, a agressividade, ambição do poder, sede do lucro, coisas comuns e tão aceitáveis pelos próprios cristãos dos dias de hoje que fazem desta religião, se a mesma for só isto, digna de destruição. 

Mas sabe-se que o cristianismo não é de tudo ruim. Ainda existem os que nele acreditam. E pelo fato deste ter saído na frente das demais religiões se adequando e adequando a modernidade passa a servir de modelo para as demais religiões que cedo ou tarde, também enfrentarão a modernidade. 


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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Diagnóstico auxiliar

Por Carlos Chagas

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A exemplo do cristianismo as demais religiões estão convidadas à resposta frente as necessidades da modernidade. No momento não é interessante que as religiões se fechem em isolamento espiritual, antes, como o cristianismo, deveria se ater às propostas modernas como forma de crescimento e para a autocrítica.

Diferente do que muitos pensam, modernidade não diz respeito apenas às mudanças estruturais, econômicas e sociais, mas uma nova forma de consciência. E se hoje existem uma nova consciência também a uma nova concepção para todas as coisas, dentre as quais se encontram as religiões. O cristianismo foi a primeira grande religião a debater com a modernidade, obtendo com isso um amadurecimento a duras penas, mas sem ser aniquilado do mundo. Da mesma forma, todas as demais religiões universais deveriam observar alguns pontos críticos como:

a- Sabe-se que no islamismo o Alcorão é inspirado literalmente (palavra por palavra) e que o mesmo é infalível. Diante disso, até quando serão sustentadas pelos islâmicos tais concepções uma vez que o Ocidente, devido às pesquisas modernas, constatou que no Alcorão contém muito material de origem posterior e ocasional incluindo uma história muito humana? Como conceber o tradicionalismo religioso do islã frente descobertas do tipo eletricidade, micróbios, satélites e conquista da lua, sabendo que esta última é o símbolo sagrado do islã?

Por que o islã não deveria poder incluir em seu sistema, em sua teologia, hoje estéril, mas altamente evoluída na Idade Média, as modernas conquistas científicas, técnicas, econômicas, culturais, políticas, que não se originaram dele? Em tempos onde a mulher ganha seu “lugar ao sol” como defender o tradicionalismo? E diante da autoridade civil e penal, que a cada dia descarta a autoridade do Alcorão, como subsistir ante este esfacelamento?

b- Grandes religiões como o budismo e hinduísmo, que pregam a cosmovisão cíclica, que pensam em círculo (eterno retorno) estão diante da crise instaurada: Como responder a um mundo que lê sua história de forma dialética na concepção de uma evolução linear? Até onde estas religiões não se passariam por ridículas com suas leis infalíveis do carma e do agir e da recompensa automática?

c- Até onde a teoria do hinduísmo sobre reencarnação e castas seria aceita? Num mundo que hoje se encontra ciente de que as castas, no fim de tudo, só servem para esconder a verdadeira realidade de que tudo pode sofrer mudanças tais concepções podem caducar.

d- Que dizer da concepção monástica que se isola e considera tudo irreal e ilusório se tornando tão passivo que chega a ser dispensável? Num mundo tecnocrático onde laboratórios, computadores, portas automáticas, economia global são uma realidade negar isso tudo é o mesmo que não acreditar no que é considerado irreal por tão latente e palpável que é.

e- Ainda que o neoconfucionismo chinês busque a harmonia dos homens por que ainda há hipervalorização do tradicionalismo, se foi este tradicionalismo o responsável pelos maiores problemas da China no início do século XX?


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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Não há nivelamento

Por Carlos Chagas

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Talvez o melhor fosse esquecer neste momento as doutrinas de cada religião e partir para a vida concreta. E que há de concreto nas religiões apresentadas hoje são a quantidade de entidades, sejam de pessoas, deuses, seres, anjos ou forças, as quais, em suma, representam um politeísmo.

Não há como negar que tudo isso, no ponto de vista histórico, é riqueza, e que no ponto de vista religioso, para a conversão, é um nada. Nenhum cristão se tornará budista ao passear em Bancoc e nem um hindu se tornará um monoteísta ao visitar a Basílica de São Pedro.

Com o fenômeno das Ciências das Religiões comparadas o que se viu foi um destacamento das semelhanças das religiões e não suas contradições. Ora, o cristianismo, que diz ser a “religião do livro” não deveria o ser já que não se lava as mãos para ler a Bíblia como o islã o faz para com o Alcorão; o rio Jordão não é sagrado para o judaísmo como o Ganges o é para outras religiões. Roma não é tão santa para o cristianismo como é Jerusalém para o judaísmo ou Meca para o islã e “as cruzadas cristãs, além de não-cristãs, foram uma inutilidade”.

Se se observados os outros aspectos das religiões podem ser constatadas as diferentes formas dos profetas, desde um asceta hindu ao filósofo na Grécia, como também as formas de interpretações não só da vida no plano físico, mas também no plano metafísico, onde o “amor ao próximo” nem sempre é a mesma coisa para o taoísta ou em Zaratustra.

A sabedoria budista diz que as religiões são como mendigos cegos ao palparem o mesmo elefante: um pega-lhe na perna e julga-o uma palmeira; outro apalpa-lhe a orelha e imagina-o folha de palmeira; um 3º agarra-lhe a cauda e toma-o por uma corda; e nenhum deles abarca o elefante inteiro. Ou seja, a religião descreve apenas uma parte da divindade, a seu ponto de vista, dizendo que aquilo é a totalidade da divindade, sem saber da real e verdadeira totalidade do deificado. Eis o problema de se tomar uma palmeira por um elefante.

Apesar da descentralização por parte de uma religião apenas, não se pode negar que “vultos influentes” como Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus revelaram possibilidades extremas, nas quais se encontram valores que perduraram por séculos e que são inquebráveis. Dignos de serem mitificados deixam também um problema com seu individual convite de aceitação: Como seguir todos ao mesmo tempo?

Agora, mais do que nunca, qualquer sentimento de superioridade advindo de um crente tradicional, seja qual for a religião, mostra que é egoísta e que pode até mesmo ter perdido seus conteúdos centrais da fé. Hoje, sabe-se demais a respeito das religiões para que algum dogmático cristão possa afirmar que as demais religiões são construções humanas arbitrárias, ou para que um hindu declare que todas elas são iguais, ou que um humanista secular promulgue que todas elas não passam de ópio do povo. 


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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Desafio Mútuo

Por Carlos Chagas

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Mais árduo se tornou o trabalho das religiões nesta era moderna. Não cabe à religião cristã rebaixar as demais e nem valorizá-las ao ponto da própria anulação. Além do mais, do ponto de vista esquemático, toda religião tem seu ponto negativo: O islã com sua veneração extremada de santos e amuletos; o taoísmo com suas magias, alquimia e elixires vulgares, além de pílulas da imortalidade; elementos arcaicos advindos do confucionismo, taoísmo e budismo; um hinduísmo no qual tudo é possível; um cristianismo de teoria altruísta e de práticas egoístas. 


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terça-feira, 17 de junho de 2014

Ignorância nobre?

Por Carlos Chagas

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Eis o dilema: Fora da igreja HÁ Salvação. Por que não afirmar isso se de fato já o faz? Além disso, se o cristianismo, que antes destacava a pobreza das religiões e agora constata a riqueza das mesmas e diz que a salvação se encontra em qualquer lugar, o que lhe resta oferecer? Se há salvação fora da igreja por que, afinal, a Igreja e o cristianismo? 

No que tange ao protestantismo (evangélicos?) não cabe dizer que o cristianismo é a qualidade do Evangelho na tentativa de negar o mesmo enquanto “religião” uma vez que, com isso, se exclui do diálogo e se marginaliza do problema que, efetivamente, permeia a realidade. 

O problema fica latente: se antes as religiões eram tratadas pelo cristianismo como algo externo e quantitativo agora, juntamente com isto, é interno e qualitativo. Ou seja, assim como em anos atrás onde a sorte das demais religiões estava lançada, agora, juntamente com estas o cristianismo também se encontra. O cristianismo então se desafia e é desafiado. 
 
 
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terça-feira, 10 de junho de 2014

Consequências perturbadoras - Cristianismo anônimo?

Por Carlos Chagas

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Há 500 anos atrás o Concílio de Florença dizia que “fora da igreja não há Salvação”. Todavia tal pensamento foi refutado no Concílio Vaticano II, onde foi dito que em homens de boa vontade (participantes de religiões universais) e mesmo ateus “que buscam a Deus”, no mínimo por princípio, “podem conseguir a Salvação eterna”. Assim, ao que parece, para os católicos as religiões como tais, podem ser caminho para a salvação. 

Para alguns teólogos católicos isso não é uma reviravolta, mas uma nova forma de interpretar o antigo dogma. Se antes “igreja” era a “Santa Igreja Romana” agora são os participantes de boa vontade que, sem exceção, fazem parte da igreja “de algum modo”. Mas estes, no fim de todas as análises teológicas e de cunho católico, são considerados cristãos não formais, mas anônimos, ou melhor, “católicos anônimos”. 

Mas isso resolve o problema da “salvação fora da igreja?” Ao que parece, o não-católico só migra, para a cabeça do teólogo. E mais: Se interrogado, um não-católico não aceitará ser chamado de “cristão anônimo”. Da mesma forma, nas palavras de Hans Küng, “que diriam os cristãos se, graciosamente, fossem epitetados de ‘budistas anônimos’”? 

Não se resolvem os desafios das religiões apenas com alargamentos de compreensão de termos como “igreja” e “salvação”. Além do mais, isso apenas transformaria Jesus em um avatar, num Boddhisattva (Bodisatva), num profeta mulçumano, além de que a evangelização não serviriam como antes.


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terça-feira, 3 de junho de 2014

Riqueza das religiões

Por Carlos Chagas

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É difícil demais para um adepto de determinada religião aprovar a religião de outrem, mas o que não se pode negar é que todas as religiões buscam a mesma coisa: a salvação do homem, seja ela espiritual (céu, inferno, etc), seja ela material (miséria, medo, etc). Toda religião parte do pressuposto da fé, superstição e descrença de algo. Logo não dá para negar que: 

  • Não só o cristianismo mas todas as religiões lutam contra egoísmos, miséria, medo, injustiças, hipocrisias, falta de liberdade e outros, cada qual à sua forma de ver o mundo; 
  • Todas as religiões reconhecem o bem. Todas lutam para que o homem não se estacione em si mesmo, pois sempre há algo mais além desta vida e da morte; 
  • Todas as religiões dão ouvidos aos seus profetas e profecias. Isto inspira o homem à coragem e lhe dá força para o recomeço. 

Se se deixado de lado o preconceito, o egoísmo e as tendências de cunho religiosos o homem talvez entenderia que todas as religiões, com seus respectivos profetas (Jesus, Buda, Confúcio, Zaratustra, etc) estavam na busca e na luta pelos mesmos ideiais. A mesma sede guiou estes profetas a tal busca. E o mais interessante é que ainda que todos estejam motivados pela mesma sede cada religião fundada tem suas próprias característica e riqueza. 

Observando profundamente e relatando de forma ágil sobre cada religião poder-se-á dizer que o hinduísmo produziu a mais rigorosa ascese e meditação, além de filosofias profundas, como as Shankaras. Já o budismo tenta explicar que se sofre para a eliminação do sofrimento, que a causa deste sofrimento é nada mais que o egoísmo, a auto-afirmação, a sede de viver, que levam o home a uma outra reencarnação. A vitória para isso é a superação de todo este mal pelo próprio homem. Daí o nirvana (apagar-se). No confucionismo se vê muita valorização do humano, mas que não quer dizer que não há a valorização do caminho ao céu (tao). Existe uma lei moral cósmica, que está presente no homem na qual se revela o Caminho. No islamismo se destaca os cinco pilares fundamentais: o credo (prece), a contribuição aos pobres, o jejum no mês de Ramadã, uma peregrinação a Meca e submissão total a Alá, que é o único Deus, do qual o sofrimento é manifestação imutável e, como tal, deve ser aceito. 

Este é o universo das religiões. A religião (o ato de se religar a Deus, ao totalmente outro) se encontra somente na religião (organização da fé). Sabe-se que para falar de uma religião antes deve-se entendê-la e respeitá-la, e que é impossível descrevê-las tal como são, uma vez que suas convergências, afinidades, encontros, influências e entrelaçamentos estão em constante expansão. 


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terça-feira, 6 de maio de 2014

O desafio das religiões universais - Salvação fora da igreja

Por Carlos Chagas

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Apesar de, na história cristã, ter tido teólogos que protestaram contra a interpretação da fé cristã como religião não faz com que o cristianismo deixe de sê-la. O cristianismo é uma religião entre religiões.

Salvação fora da igreja 

Religiões valorizadas 

Nenhuma religião pode mais se ver como isoladas das demais. Da mesma forma pode achar que substituirá outra religião sem instaurar uma crise. Sabe-se que por mais que o cristianismo adentre em países hindus, taoistas, budistas e outros, não terá grande eficácia em sua “cristianização”. E nesta “cristianização” é que se percebe o quanto o cristianismo é europeu, não buscando se adequar ao ambiente alvo dos missionários.

E hoje, no ambiente eclesial cristão, se vê o grande paradoxo: A mesma igreja que diz que na Bíblia Deus deixou claro sua intenção de salvação da humanidade (aliança de Noé) e que no NT Deus deixa claro que deseja salvar a todos sem distinção de pessoas e que não-cristãos também poderão ser justificados como observadores da lei (Rm 2.12-16), ou seja, salvação fora da igreja, é a mesma que tacha as demais religiões como mentirosas, como malignas e, às vezes, na melhor das hipóteses, donas de vestígios da verdade!

Agora, com o aumento do conhecimento pelos meios de comunicação e interação como livros, por exemplo, as religiões de forma geral recebem um novo olhar, pois todas, de certa forma, caminham com raciocínios similares, que precisam ser superados, além de que muitas religiões se apresentam como a única chance religiosa de fato com valores providenciais à existência.

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terça-feira, 22 de abril de 2014

Tarefa da Teologia

Por Carlos Chagas

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Sabe-se que não só os teólogos possuem a verdade. Ninguém, como disse Agostinho, tem a verdade, para que ela seja de todos. Assim, para todos que a buscam esta pode ser alcançada. 

No que tange à verdade sabe-se que o niilista não pode negar a dura realidade humana com a ajuda da Bíblia e nem o ateu pode falar ou negar Deus recorrendo apenas à Bíblia. Em detrimento da busca por explicações através do além ficamos muito no aquém dando margem a uma teologia por demais natural. Mas por mais que se tente praticar uma teologia natural/racional ainda fica claro que a fé cristã está além da razão pura, uma vez que a confiança em Deus nasce da fé e esta não se baseia na razão pura. Logo, para se achegar a Deus o homem recorre à ousadia renovada na confiança, a qual jamais se apoderará de Deus, antes o discriminará integralmente tal como é. Esta é a busca do homem em resposta ao seu Sitz im Leben. 

Ciências de cunho antropológico obrigam a teologia a uma resposta. Mas esta não pode ser considerada uma teologia natural uma vez que se desvencilha de uma razão autônoma dando lugar à confiança (fé), portanto, além de mera razão, entregando ao homem a possibilidade de domesticação de Deus. 

Assim, saindo da estressante dogmática, partir-se-á ao Evangelho, tendo este como o critério decisivo para o cristão. E deste Evangelho o que se pode constatar é a manifestação de Deus por parte Dele próprio na espera de que o homem, ao menos, reconheça a necessidade de abertura a Ele para que sua transformação inicie e parta para o próximo. 

Cabe também à teologia caminhar junto com as demais ciências não pretendendo uma interpretação total da realidade. Assim sendo, não é só uma crítica da teologia vigente e praticada mas uma autocrítica, o que também se exige de qualquer outra ideologia. Nesta mútua caminhada ficará claro que a realidade, ainda que única, pode se apresentar como várias, dependendo do ponto de vista sob o qual se apresenta e, quando entendida esta multiforme realidade, a conceituação da mesma será mais eficaz. 

Vale lembrar que ao teólogo ou à teologia não lhes cabe serem donos da verdade. Pelo contrário, a teologia deve ser uma crítica com pretensões à verdade. A teologia se abre à perguntas ainda que a igreja, para a qual sua razão de existência aponta, não queira ou aceite. A teologia abre o caminho e acesso inteligível entre homem e Deus. Mas ao teólogo cristão cabe o desafio: Como destacar a mensagem cristã diante das religiões universais e se apresentar como válida? 

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terça-feira, 25 de março de 2014

Vários sentidos do conceito “Deus”

Por Carlos Chagas

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Nunca na história a palavra “Deus” foi tão usada como nos tempos hodiernos. Seu significado, por isso, se dilacerou buscando caracterizar tanto algo bom como algo temível. Entretanto se se resumir o estudo sobre “Deus” a algo tão somente humano, honestamente, dever-se-ia chamar tal ação de antropologia e não teologia. Falar de Deus é invocar o Logos.

O estudo sobre Deus sempre foi algo necessário e, por vezes, contraditório. E por causa desta contradição alguns setores, como o da filosofia, distanciou do discurso, não só por isso, mas por trabalhar com uma razão antropológica e não teológica. Se for visto o Deus conceituado através da história que a filosofia estuda serão encontrados: o “Deus” que é moral segundo Kant já não o é segundo Nietzsche e aquele que é ou era o Criador, teoria defendida por filósofos antigos, dentre eles, Aristóteles, já não mais existe, como defende Thomas Jonathan Jackson Altizer. Logo, se a história da filosofia exige esclarecimento, ela mesma faz duvidar da sua capacidade de levar a cabo algum esclarecimento.

No caso das religiões estas não nascem de uma intelectualidade adicionada ao cauteloso estudo de caso, mas de uma unidade experimental de conhecimento aliada à vontade e sentimento em busca da inter-relação entre revelação (Deus?) e realidade.

Não obstante, falar de religiões é se inclinar ao erro de se voltar à era pré-iluminista. Erro porque a forma como se aborda algo hoje é aos moldes modernos, e deve haver cautela ao abordar modernamente o termo, uma vez que falar de religião não é o mesmo que dissecar um sapo. Sendo assim, o que seria seguro dizer de Deus?


 
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terça-feira, 18 de março de 2014

A realidade - Parte 4

Por Carlos Chagas

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Continuação do artigo "A Realidade - Parte 3"

7- Apesar de confiança ter a ver com o material, a fé em Deus em muito se assemelha a estes. Logo, confiança radical e fé em Deus é:

- Não se limitar a uma razão simples, mas na integridade do homem;

- É super-racional uma vez que não se limita a tão somente razão, mas ao relacionamento e ao comprometimento com amor. Assim como não se explica a existência de Deus não se explica a realidade e, assim, há a possibilidade da legitimação da confiança no extra-humano;

- A fé não é irracional uma vez que se dispõem de um apoio na insegurança da realidade. Essa é sua razão;

- Compromissada com a realidade. Assim, como a ciência procura explicar a realidade assim é a fé. Logo, não é cega nem vazia;

- É anexada ao próximo. Não se fala de Deus se não se liga ao próximo.

8- Mas o que o ateísmo pode criticar na fé cristã?

- Aquilo que não condiz com a mensagem bíblica, o que é infrutífero com relação à busca por respostas à realidade;

- Aquilo que ainda não foi experimentado e que se pode confiar. A fé cristã precisa de um testemunho da fé em Deus dentro de uma práxis;

- Aquilo que foi experimentado e que não condiz com a realidade. Até o ateísmo necessita de comprometimento com a práxis.



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terça-feira, 5 de novembro de 2013

A realidade - Parte 3

Por Carlos Chagas

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Continuação do artigo "A Realidade - Parte 2"

5- Para aquele que diz sim a Deus se propõe a aprofundar na racionalidade criteriosa e de radical confiança buscando entender a condição da realidade contingente. O “sim” a Deus promove vida ante o fundamento da fé. E essa racionalidade radical jamais pode ser confundida com o racionalismo.

E esse “sim” passa a se revelar como provocante e desafiador ao homem sempre de forma positiva, pois a realidade que antes se demonstrava sem sentido agora passa a ter um ar de possibilidades de mudanças. Essa racionalidade fundamentada da fé agora mostra que o homem pode correlacionar o que de positivo tem nessa fé com o seu próximo dando um sentido último em seu relacionamento com Deus.

Desse modo, aquelas perguntas primordiais da realidade sócio-religiosa do homem passa a ter simples formulações de possíveis respostas que mais à frente darão sentido a essa realidade que agora é relida com novo foco.

6- Mas por que o homem, após dizer “sim” a Deus ainda sofre com a tentação de dizer “não” a Deus? Parece que a fé não é tão racional quanto se parece. Mas é com a caminhada da práxis da fé é que o homem consolida sua racionalidade da escolha pelo “sim” a Deus. O homem entende não para os demais, mas internamente para si mesmo. Talvez falte-lhe palavras para a descrição desta fé, todavia esta fé praticada é entendida por ele e por aquele que de repente se torna o alvo da mesma. Portanto, a escolha entre o “sim” e o “não” de Deus só se dá pelo consentimento particular do homem, e só dele.


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terça-feira, 22 de outubro de 2013

A realidade - Parte 2

Por Carlos Chagas

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Continuação do artigo "A Realidade - Parte 1"

3- Eis o impasse:
- Se Deus existe deve ser provado pela realidade;
- Se Deus não existe também deve ser provado pela realidade;

Para falar de Deus se parte de dois princípios: Um é a “fé” da religião, categoria esta que fundamenta toda sua teologia; e outra é a “descrença” ou hipótese, que fundamenta todo o discurso e argumentos dos, no caso, ateus.

Logo o homem se vê num impasse. Deve decidir pela fé ou descrença que, esta última que em análise mais aprofundada é a “fé da ciência”, mais conhecida como “hipótese” (algo ainda não comprovado racionalmente). O homem se encontra sem coação intelectual.

O que deve ser entendido é que mesmo que o homem não decida nada ele assim já está decidindo. Ir para a “fé da religião” é decidir por nada segundo os ateus. Mas não decidir por ela é ficar no nada já que Deus não foi anulado pelos ateus e o niilismo. Mas o desempate dessa briga se dá agora.

O que se percebe é que a verdade, ao invés de não existir, ela simplesmente não pode ser aceita, segundo o ateísmo. Por quê? Porque nos dias de hoje parece que a verdade só o é quando é banal. Quanto mais profunda a verdade mais o homem deve se abrir para ela. A verdade atual só o é quando se tem segurança e esta segurança só está no plano mais raso, mais simples. Mas o homem deve orientar para ela o intelecto, a vontade, o sentimento para alcançar a autêntica certeza, esta que não necessariamente vem acompanhada de segurança. 

No fim de tudo, percebe-se que:
- O não a Deus (recusa) denota uma confiança radical, mas sem base, depositada na realidade.
- A sim a Deus (aceitação) denota uma confiança radical, fundamentada, para com a realidade. Quem afirma Deus sabe pelo que confia em Deus.

Logo, não é um empate.

4- O ateísmo que tenta se apresentar como algo racionalmente aceitável está longe disso. O ateísmo não busca nem apresenta uma meta final consistente de apego da realidade. Antes só apresenta críticas destrutivas sem novas construções. Chega ao niilismo. O ateísmo não dispõe de mecanismos para indicar alguma condição de possibilidade da realidade incerta. Assim, tenta se apresentar como racionalmente certa, mas que na verdade não passa de irracional e nociva ao homem. 

O ateu se expõe à falta de meta, ao risco da falta de base, de suporte e objetivo. Além do mais, o ateísmo, que nasceu para questionar a religião, é questionado por todos nas mesmas questões, questões estas que visam as mesmas tentativas históricas: Sobre a vida humana. Seriam estas perguntas:

- O que podemos saber? Desde o motivo de sua existência até o sentido da realidade.
- O que podemos fazer? Desde o que fazer até o sentido da amizade.
- O que podemos esperar? Desde o sentido da existência até a tentativa de não aceitação da morte como absurdo.

O fato é que para um ateu que entende sua história entende agora que se antes a iniciativa era destruir a religião porque não responde a essas perguntas agora se vê perguntando a mesma coisa. E o pior: Também não sabe responder e perde para a religião, porque esta ainda busca sentido de vida.



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terça-feira, 15 de outubro de 2013

A realidade - Parte 1

Por Carlos Chagas

Este artigo faz parte da série O que é ser cristão? Caso queira acessar o índice clique aqui.




Então, para que não nos percamos, devemos avançar aos passos. Qual seria a solução para esse impasse?

1- Todo ser pensante deve conceder ao ateísmo o direito de um “não!” a Deus. É possível sim negar a existência de Deus já que o ateísmo não pode ser eliminado racionalmente e pelo fato que Deus não pode ser provado, da mesma forma que é irrefutável.

A experiência da radical insegurança de qualquer realidade leva pensadores ateus afirmarem que a realidade não possui fundamento original e objetivo último e que tudo culminará no absurdo e na ilusão (niilismo).

Racionalmente falando não existem contra-argumentos racionais que aniquilem ou ameacem o ateísmo. Todavia a negação de Deus não se dá apenas racionalmente.

2- Concomitantemente, se dizer “não” a Deus é possível, o “sim” também o é. Por quê?

Se o “não” é aceito porque Deus não se faz presente de fato para estudos e averiguações, o “sim” é possível uma vez que a realidade que está entregue ao homem se mostra com fundamentação desconecta; em todo seu suporte, sem base; em todo seu progresso, sem meta. Portanto o “sim” é tão válido quanto o “não”!
Os mesmos critérios usados pelo ateísmo em prol da derrubada do “sim” a Deus são os mesmos usados pelos religiosos ao “não” ao ateísmo. Seria então um empate?



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terça-feira, 2 de julho de 2013

Hipótese

Por Carlos Chagas

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Assim como Kant, todos devem se perguntar sobre a verdade de forma reflexiva. O que posso saber? O que devo fazer? E o que posso esperar? São perguntas razoáveis não só para aqueles que buscam a Deus, mas também para aqueles que querem compromisso com a verdade. 

A busca por provar a existência de Deus se dá pela necessidade do homem se explicar também existencialmente. O fim desta necessidade de explicação é o alcance de sentido e de verdade. Mas essa busca pelo questionamento sobre Deus e sua existência não pode culminar no niilismo, já que é o caminho oposto é a própria covardia. Se o homem procura saber sobre a existência de Deus deve acreditar na sua própria existência procurando, assim, sentido nela. Logo, na realidade deve ser enxergada a vida, o sentido e o valor. Então, a busca do homem pela realidade não é com desconfiança e sim com radical confiança.

Entretanto tal confiança não anula a certeza numa realidade que é incerta. Além disso, a realidade sobre Deus é construída pelo homem também a partir da concepção da realidade que o cerca. E a facticidade enigmática da realidade está na sua não-compreensão do real ou não-real, do ser ou não-ser, no crédito de confiança básico ou do niilismo. Mas o homem também é definido a partir da realidade. Logo, se Deus pode ser negado por que não e também o homem? E se Deus pode ser aceito, e deve ser, por que não o homem também? Nas palavras de Küng: “Se o homem não abrir mão de compreender-se a si mesmo e a realidade em geral, as últimas perguntas, que são também as primeiras e estão a exigir resposta, deveriam ser respondidas. E nesse ponto, o crente está em competição com o descrente, quanto à maneira mais convincente de interpretar as experiências humanas essenciais”. 

Assim, a percepção da realidade pelo homem pode partir ao menos de duas hipóteses: da inexistência de Deus ou da sua existência.

1- Não perceber de onde e para onde vai a realidade não dá certezas sobre a existência de Deus e nem para sua inexistência. Sabe-se que se Deus existisse o conceito sobre realidade seria mais bem fundamentado, pois o homem teria origens. Não haveria realidade pendente sobre o vazio; Deus seria o fundamento. 

Entretanto a dúvida sobre a existência de Deus nasce quando se vê uma realidade que ora é e ora não é. A realidade ora tem sentido e ora é absurda. Logo, Deus não pode ser irreal e caminhar para o nada. Daí a suspeita de sua inexistência.

2- E se Deus de fato existisse eu poderia a) ter Deus como fundamento e, assim, me pautar contra qualquer ameaça; b) dar sentido à minha vida contra qualquer absurdo; c) poderia afirmar a bondade e a esperança e d) não negaria minha existência já que o sentido de tudo estaria em Deus. 

Mas o que se vê é a conceituação de Deus pelos incrédulos tentando a negativa do mesmo e a conceituação do homem pelos crédulos com a mesma intenção dos primeiros. O fato é que a realidade não é a aglutinação de Deus ou do homem nesta. Não se pode substantivar a realidade com Deus ou com o homem. A realidade é algo distinto.



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terça-feira, 21 de maio de 2013

Mais que a razão pura

Por Carlos Chagas

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Apesar de Kant em Crítica à Razão Pura, ter deixado a ideia sobre Deus um tanto quanto vaga, em Crítica da Razão Prática se vê que Kant não nega (mas também não defende) que Deus exista. 

Kant procura pensar o homem e sua prática. Pensar em Deus é um tanto vago para ele, mas o agir do homem não. Assim, Kant procura estabelecer valores na ação do homem e chega à conclusão do homem ser uma entidade moral. Logo, suas ações ligam, de certa forma, ao desejo (por exemplo, à felicidade). Assim, o “objeto” Deus pode ser concebido. E se pode, sua realidade não é negada. 

Mas ainda sobre Deus, Kant passa a ser questionado em duas coisas: (1) E se a ideia de Deus for algo negativo como diria Nietzsche anos mais tarde? Ou seja, e se o conceito de moralidade do homem for algo variável e subjetivo, mas que se apresenta como objetivo? E (2) por que considerar o fato de que o homem necessita de uma moral deve ser estritamente ligada à felicidade e, com isso, alimentar uma ideia de um Deus bom? Parece que a ideia intitulada “Deus” só serve para unir valores morais universais e que este não chega jamais a ser uma pessoa ou algo do tipo. 

A ideia de que um dever imposto ao homem pelo próprio homem englobando a moral, categorizado por Kant parece matar Deus antes de Nietzsche e Zaratustra (protagonista criado por Nietzsche para anunciar a morte de Deus e o livramento da humanidade deste). Todavia, com tal crise para falar sobre Deus ainda não há como impedir a valorização da religião como realidade ao homem. Matar Deus, enquanto objeto, não anula o conteúdo religioso. Até então, o que vimos é que nem um sistema prático, nem um sistema filosófico, ao menos ainda, não resolvem o que se refere ao fim da religião. Uma vez que o homem se demonstra corrupto e desonesto em si e consigo, a religião ainda possuirá força. Não há conclusão dedutiva de Deus a partir da realidade vivida pelo homem que, como se vê na história, é cheia de altos e baixos. 

Então o que resta? Küng diz: “uma reflexão feita nas pegadas do conhecimento concreto da realidade, meditação esclarecedora, iluminadora com objetivo prático”. Logo, seria interessante relacionar Deus com a realidade e história humana visando algo crível, buscando a honestidade e responsabilidade racional da fé de forma até mesmo razoável, afinal, a fé não precisa necessariamente ser irracional. 



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terça-feira, 14 de maio de 2013

Provas da existência de Deus?

Por Carlos Chagas

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Eis uma situação sem saída: se a fé em Deus pode ser provada logo deixaria de ser fé. E se a fé em Deus não pode ser comprovada até quando ela será razoável (aceita pela razão)? 

1- Se a revelação depender apenas de Deus, ou seja, se cabe a Ele o primeiro passo para a sua revelação ao homem, não caberá mais nada ao homem do que tão somente ter fé e se inclinar a compreender. No que tange ao cristianismo essa revelação se dá na sua Palavra – Creio para compreender. Tal pensamento permeia o meio protestante e evangélico. 

Assim, a compreensão sobre o que seja Deus parte somente Dele. A infinita distância entre Deus e o homem só pode ser vencida dialeticamente através de sua revelação. Assim, não há lugar para uma teologia que responda às necessidades do homem. 

Daí surgem as perguntas: Até onde o conceito sobre Deus deixará de ser não experimental? Falar sobre Deus não deveria englobar todo e qualquer homem? Onde ficam as experiências do homem? Deverei me anular e sacrificar minha inteligência? Perguntas justas já que: 

  • A fé não deve ser cega. O homem não deve ser violentado, mas convencido por meio de razões, para que possa tomar uma decisão responsável da fé; 
  • O homem não deve crer sem ao menos verificar. Deve haver nexo entre fé e realidade. 

2- Como pode o homem conhecer o sobrenatural se ele só entende o que lhe é racional? Até mesmo o que é tangível à fé, esta só é compreendida a partir de conceitos racionais – Compreendo para crer. Esta forma teológica de compreensão do mundo e de Deus é muito comum no meio católico. A partir da teologia natural, tendo a fé presa à razão, passa-se a conhecer Deus, que, por sua vez, deixou rastros de seu mistério ontológico na própria criação. 

Entretanto, o que se tem, é a criação de um Deus a partir da cosmovisão de mundo que cada homem tem. Aquele Deus de conceituação universal, dá lugar ao Deus segundo a imagem e semelhança do que a razão de cada um dita. E ainda nascem argumentos do tipo: 

a) Uma prova pode provar Deus? Seria possível provar a existência de deus sem, com isso, não criar um deus segundo o que vejo, penso, afirmo e acredito? 

b) Após provado, Deus ainda pode ser Deus? Se o humanismo quer, de fato, conceber a ideia de Deus e, quem sabe, porventura, venha a conseguir tal façanha, qual será o risco desse “Deus conhecido” não vir a ser considerado um objeto? Como atrair o extraordinário e submetê-lo a estudos ordinários de seres também ordinários? 

c) Qual é o limite da razão humana? Vale lembrar que Kant, em Crítica da Razão Pura, limitou não só o conhecimento de Deus por causa do que é numenal, como também limitou o próprio homem em seu raciocínio. Ou seja, aquilo que não é experimental e explicável razoavelmente não é real. Logo, Kant é a pedra no sapato para quem quer explicar Deus e Sua existência. 

Para a religião, se explicar diante do humanismo racionalista de hoje é algo complicado. Eis algumas dificuldades para isso: 

  • Para a razão de hoje, não há estrutura alguma que sustente a ideia de Deus e sua possível (ou suposta?) existência. Assim, cabe somente o niilismo; 
  •  Ainda que houvesse alguma realidade divina esta não seria um dado relevante. Não há, para a filosofia atual, experiência direta de Deus relevante ou confiável; 
  • Se não há como recorrer à experiência empírica (busca de conhecimento a priori), não há razão; não há conhecimento; 
  • E ainda que existissem argumentos criados a partir da experiência (conhecimento a posteriori), ainda sim deveria-se perguntar se estes arremetem à realidade humana e razoável; 
  • Se a fé é provada cientificamente esta poderá ser descartada pelo homem uma vez que ele já a conhece racionalmente, ao invés de a ela ser convidado. Além do mais, ainda que se racionalizasse a fé esta não seria em sentido universal já que a verdade não é uma para todos e sim para cada qual conforme seu interesse. 

Então como a religião escapará desta aporia (dificuldade de ordem racional)? 


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terça-feira, 7 de maio de 2013

Futuro da religião

Por Carlos Chagas

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Do século XIX ao XX o que mais se ouviu foi sobre a morte de Deus. Discurso iniciado com Nietzsche e anunciado pelo período da I e II guerras mundiais não passou de falácias. A comprovação científica de tal fato nunca veio à tona. Se comprovar que Deus existe, de forma científica, ainda não aconteceu, quanto mais provar que o mesmo está morto. E se a morte de Deus ainda não é realidade científica, quanto mais complicado é, e para a tristeza dos ateus, o fim iminente da religião. 

O egoísmo científico está em achar que não necessita da religião e que esta apenas existe para a imundícia do mundo. Sabe-se que a ciência moderna veio surgir graças à religião. A religião nasceu primeiro e dela se originou a ciência. E há quem diz que o papel da paz no mundo cabe tão somente à religião. 

Inúmeros ateus já tentaram “matar” Deus. Feuerbach e Nietzsche foram os ateus que mais investiram suas vidas em prol da morte de Deus, todavia nunca conseguiram desvencilhar-se desta problemática religiosa. 

Mas talvez o maior descrédito fique com Marx que, após ficar embebido da filosofia de Feuerbach, sustentando a morte da religião após sua revolução, conseguiu apenas: 

1- Implantar um ateísmo agressivo, mesmo tendo em seu território religiões estabelecidas, que visava, de forma militar, acabar com todas as religiões através do extermínio e; 

2- Após perceber que não conseguiu tal coisa, foi obrigado a colher postumamente a dura e nova realidade: Um cristianismo que ao invés de estar em declínio, mostrou-se em ascensão, tendo 1/3 dos russos convertidos ao “lixo cristão” e 1/5 de soviéticos cristãos praticantes. Duro golpe se for parar para pensar que os russos, na época do senso, representavam 50% da nação. 

No processo de secularização iniciado no século XIX não foi dado maior atenção por parte de sociólogos e teólogos. O pouco estudo que se teve deste caso foi voltado à nostalgia da era ouro da igreja e/ou expectativa utópica do porvir. Assim, pesquisas exatas não aconteceram. Logo, os futurólogos secularistas acharam que religião nada mais era que doutrinas, ritos, comportamento, costumes, ritmos de vida e estruturas sociais. Mal sabiam que isto era nem metade. 

Só após o problema levantado com a implantação de regimes ateístas é que a religião foi mostrar, de fato, o que era: Um conjunto de impulsos e inspirações, convicções e atitudes, integração e força integradora, com fé, esperança e caridade que a legitima, tornando-a possível e a destacando como algo infinitamente maior. 

Religião não se resume ao sacral. Religião não é a pompa ostentada. Porém, já que a secularização começou o que não se pode mais parar, (não a curto prazo), pode-se dizer que o futuro da religião está fadado a: (1) interrupção do processo de secularização, mas a longo prazo, o que parece impossível; (2) ininterrupção da secularização, reduzindo as igrejas a minorias (pouco provável) e/ou (3) continuação da secularização todavia com alterações nas raias sociais dando maior autonomia às igrejas eclesiais ou extra-eclesiais. 

Até mesmo os especialistas em sociologia religiosa como Durkheim e Weber diziam que assim como a arte a religião sempre existirá. Pesquisas religioso-sociológicas confirmam que a religião atual não mais exerce influência direta em áreas como ciência, educação, política, direito e medicina. Principalmente quando envolve países de 1º mundo. Entretanto, em países de 3º mundo ainda se vê, e fortemente, lutas contra pobreza e independência. Já no que tange à cultura jovem, ou seja, em plena era humanista, nasce uma religiosidade nova, desde as formas inócuas da astrologia até ao culto ao demônio, ainda que em porões. 

A ideologia do secularismo visava a destruição das religiões. O cristianismo, em específico, apesar de não ter sido extinto, não mais foi o influenciador da economia e educação, por exemplo. Mas isso, de certa forma, não foi de tudo ruim: Assim, o cristianismo teve a chance de se concentrar em sua tarefa específica. Neste sentido, a secularização veio como uma grande chance. E se antes a religião era culpada por não responder enfaticamente o “de onde viemos?” e o “para onde vamos?” agora a bola da vez passa a ser a ciência secular, que se mostrou insuficiente nessas questões. 

Assim, até aqui, o que vimos é que a ciência não é digna, ou ao menos, é incapaz de assumir o que antes a religião controlava e representava. O ceticismo não se mostrou positivo, mas tão somente problemático. E sobre Deus, ainda é algo incompreendido. Culpa da religião? Culpa da ciência? Agora, mais do que nunca, a fé foi desafiada a prestar contas de suas afirmações e a não mais fugir do problema. 


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