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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um dia que marcou minha história

Por Carlos Chagas

De 2005 a 2008 eu procurei estudar teologia. E esta faculdade que escolhi era reconhecida pelo MEC e por ser assim era interdenominacional, ou seja, não defendia placas de igrejas, mas não se desvencilhava da teologia cristã. Logo, estudávamos todas as teologias possíveis e relevantes para o crescimento teológico.

Lembro-me que certa vez tivemos um evento chamado de "Semana de Reflexão Teológica", onde tivemos contato com minorias cristãs que traziam práticas litúrgicas que muitos não têm acesso fácil. Foi então que escolhi entender as CEB's (Comunidades Eclesiais de Base), uma ramificação católica onde se inverte momentaneamente a pirâmide do poder da igreja católica, onde o povo, que é a base da pirâmide católica, passa a ser o topo. Assim, no decorrer da missa, a atenção especial daquele singelo momento passa a ser o povo e seu Deus.

Na ocasião, quem explicava para nós a dinâmica das CEB's era o Frei Gilvander. Lembro-me que em dado momento ele passou um vídeo mostrando que a missa era uma espécie de festa onde se tinha a ministração da palavra junto com louvores e depois era os "comes e bebes", onde era servido comidas típicas como pão-de-queijo, suco, café, bolo, etc. Mas em dado momento a música cessou e o padre pediu para que todos lembrassem da morte e ressurreição de Cristo. Neste momento o alimento sólido que está na sua mão deveria ser levantado e, após dar graças, eles comiam, independente de ser pão, bolo ou biscoito. Assim também era feito com o líquido que se tomava no evento. Frei Gilvander salientou que Jesus Cristo usou pão sem fermento e vinho tinto porque eram comidas típicas dos judeus da época e que se fossem outros povovs ele usaria outro tipo de alimento já que não é o alimento em si que faz a diferença e sim a memória do evento, que é a morte salvífica de Cristo.

Fiquei maravilhado com a ministração e fui embora para casa pensando naquelas palestras. Dado dia encontrei com um pastor amigo meu que começou a falar de Bíblia. Como sempre acontece, pastor e teólogos não se "dão tão bem", principalmente quando o teólogo não é da linha tradicional de compreensão teológica da Bíblia, que é o meu caso. Em dado momento de nossa conversa ele me perguntou o que eu estava estudando na faculdade. Percebendo a malícia de sua pergunta contei sobre o que aprendi com as CEB's. e como elas são interessantes uma vez que coloca o povo em plena participação da Ceia do Senhor, coisa que não acontece nas missas tradicionais na Igreja Católica. Foi o estopim da crise em nossa conversa. Este pastor se sentiu ofendido em sua fé e disse: "Carlos, você está de brincadeira comigo... como pode isso! Realizar uma Ceia com bolo e café... inaceitável". Expliquei para ele que o fato de se usar outro tipo de alimento não desmerecia o evento, que é relembrar a obra de Cristo. Ele concluiu: "Irmão, me desculpe, mas para mim, desviar um pouquinho que seja da Bíblia, o mínimo que seja, é heresia...". Interrompi ele no ato para dizer: "Pois é pastor, então estamos todos no inferno a mais de 200 anos... porque nós não ceiamos com pão SEM fermento e VINHO tinto, e sim com pão comum e suco de uva". Ele se calou.

Isso aconteceu a quase uma década. Raramente cito isso. Mas achei interessante escrever isso aqui para que todos refletissem em sua postura e pensamento. Será que o nosso foco é de fato no objetivo que Jesus quis mostrar ou nos meros elementos que Ele usou? Será que o nosso radicalismo faz com que vivamos a mensagem Bíblica ou só nos faz sermos cristãos superficiais? Será que trocaríamos nossas crenças cristãs por Jesus Cristo? O que vale mais: Jesus Cristo ou a liturgia?

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Um garoto, um câncer, uma legião de seguidores

Por Carlos Chagas

Por alguns meses tenho seguido no Facebook a história de um garoto-guerreiro, chamado Marcos.  Após conhecer sua luta contra o câncer e da família em tentar regressar todos a uma vida normal, enfrentando exames, remédios, viagens e mudança para São Paulo, não mais deixei de orar por eles. A cada dia lia uma nova página da vida deste garoto-guerreiro e novamente me colocava em orações. Digo que no início me emocionava e por raras vezes eu chorava. Os dias se passaram. A situação da saúde dele piorou. E quanto mais piorava, mais eu orava e mais me comovia a fé deste grande-pequeno. Até que Deus criou mais uma estrela ............ meu chão saiu de mim. Foi quando percebi que, mesmo sem conhecê-lo, mesmo sem conhecer alguém da sua família, eu o amava como meu próximo, quase que como um filho. Chorei. Fui ao meu banheiro e fiquei por lá. Não fazia nada a não ser chorar. Só saí de lá quando meu filho, de 7 meses de idade, chorou requisitando minha presença. Enxuguei os olhos e fui. Graças a Deus por minha família e filhos. Agradeço pela saúde de todos.

Esta postagem não é para falar de mim. Aliás o parágrafo acima é só a introdução de uma história que será resumida pela mãe-guerreira, que conquistou meu coração, nas palavras abaixo. São tão sinceras que não pude deixar de colocá-las aqui. Sem mais, segue o texto:


Por Cláudia

Me disseram uma vez, que o trauma de uma criança que passa pela luta contra o câncer, é o mesmo que de um soldado de guerra.

Primeiramente quando recebemos noticia do câncer parece que fomos convocados para guerra. Mas não nos dão munições. Só dizem você vai ter que lutar muito.

Soltam uma granada que abre o chão.

Aprumamos o peito damos a mão aos pequenos guerreiros e seguimos rumo a tão temida guerra, Com coragem! Na certeza que vamos vencer. Aí começa os combates : quimioterapia, punções, exames de todas as espécies. Choro, medo, sentimentos aflorados... muito choro... Vai se passando o tempo e o bombardeio continua. Transfusões de sangue, plaquetas, rituximabes, brigas com o médico do hospital, com o sitema encalhado de saúde. Desgastes desnecessários...

Tentamos e conseguimos muitos aliados- 12.000 que nos sustentam, nos amam, nos erguem e oram por nós.

A doença não espera brigas ou desencontros , ela é traiçoeira... caladinha fingi ter saído de cena.

Volta de forma tenebrosa na medula. Sentimos a perna arriar e o suor frio escorrer pela face. Choro, medo... mais choro. Promessas. Quimioterapia sistémica , punções, intratecal e medo. Sentimos o inimigo ficando mais forte. E não sentimos os médicos ... Juntamos nossas reservas de otimismo ,de fé e de amor e partimos com tudo para o novo combate.

O corpinho do guerreiro começa a dar sinais de cansaço. Mas no meio de uma dor e outra abre-se um sorriso lindo de sua boquinha que nos dão resiliência. Ele brinca, canta, faz bagunças e ora. Ora incessantemente para o Papai do Céu. Sabemos que Deus esta conosco e clamamos sua misericórdia! A guerra é árdua. Doe na alma. Sangra o peito. Nos tira completamente a liberdade. Não podemos voltar para casa. Estamos tristes e com saudades de todos.

Mais uma vez vem tiroteios de todos os lados. Nos tirando o direito da fuga. Mesmo gravemente ferido o soldado de Cristo persevera. Reage, luta, teima com os médicos. Fica somente 3 dias na UTI. Acorda gritando pela sua dignidade. Diz que vai denunciar...

Seu corpinho arqueia novamente agora com uma dor descomunal. O anjo mau abre seus olhinhos. Grita, agoniza de dor. Tento de todas maneiras reergue-lo. Mas o peso do sofrimento e das duvidas, da incapacidade são maiores. Grito, clamo, meu corpo todo treme com o ultimo ataque. a maldição toma conta. Nem ele nem eu acreditamos que estamos perdendo a guerra... Tantos acreditavam na nossa vitória!

O soldado cai. Para nunca mais levantar. Amordaçado, calado, preso numa cama fria de hospital. Vejo meu filhotinho sofrendo sem nada poder fazer.

O tempo passa... e só me resta cantar para ele. Oro e imploro um milagre de Natal. Ele sofre!

Começo então a contar para ele sobre o paraíso! Sobre os animais que ele encontrará lá, sobre Papai do Céu. Digo para ele que ele pode ir... Que já lutou bastante e que me sentia muito orgulhosa dele. Falo também que irei continuar sua luta pela dignidade de outras crianças.Que o seu exemplo de garra havia mudado a vida de muitas pessoas. Beijei, abracei, deitei do seu ladinho e disse tudo que eu queria dizer para ele. O soldado vai se entregando...de leve... como um passarinho que perde seu voo. Relutava para não nos deixar... Vieram anjos pousar ao nosso lado e chorar conosco a nossa dor. Conversamos horas e horas com ele dizendo que agora era a hora dele partir. Minha boca falava e meu coração sangrava. Como uma mãe pode pedir seu filho para ir?

Segurei sua mãozinha até o último suspiro. Ele foi vencido. O câncer o sucumbiu. Marcos descansou.

Eu fiquei... Perdida, calada, procurando um cantinho qualquer. Se eu disser que não me revoltei é mentira. Revolto com todos desencontros, todas dores,contra episódios que poderiam ter sido muitos diferentes, toda falta de vontade e contra essa doença maldita que tirou minha alegria!

Meu Marcos se tornou meu amigo intimo. Sabia quando eu tinha frio, fome e alegria. Vibrou, cantou e chorou comigo.

O que será de mim? Prefiro não pensar. Sinto que meu filho esta comigo. Me dando forças e segurando a minha mão. Ele era forte demais! Ninguém pode imaginar o tamanho de minha dor. Nem mesmo eu. Secaram minhas lágrimas. Minha boca esta calada. Minha alma esfriou. Sei que vou voltar um dia. Mas por enquanto eu vivo meu luto. Que nem sempre precisa ser de choros, gritos e desespero. Meu luto é representado pela reflexão, dor e pela observação! Sei que todos respeitam o meu momento. Por mais estranho e indesejável que ele pareça ser. É o meu momento... Saudades...infinitas saudades do meu pequeno!

Tenha certeza meu filho que você não perdeu! Você ganhou a admiração , amor e seu nome será citado sempre como : NOSSO CAMPEÃO VENCEDOR! DEUS TE DEU ASAS* FAZ SEU VOO... MEU AMOR !

Este garoto-guerreiro, em sua caminhada, jamais desistiu da fé. Não fraquejou, não blasfemou e ensinou. Levantou mais de 12.000 seguidores no Facebook. Moveu ações entre amigos dentre as quais tive o prazer de participar. Comoveu e moveu seus amiguinhos de escola. Professores estão ainda de luto. Ensinou de uma forma que poucos aqui na Terra ensinariam. O nosso Natal está menos brilhante este ano. Eu, um teólogo formado, digo que aprendi muito com este grande-pequeno. Hoje, além de orar a Deus para que conforte os familiares e todos os atingidos pela perda, peço a Deus um humilde presente: Que quando eu entrar em Seu aposento que eu possa receber um abraço do meu mais novo herói. Marcos, me tornei seu fã. Me aguarde pois um dia vou te abraçar. Obrigado filho!

Em prantos aqui nestas últimas palavras.... desculpem-me!