terça-feira, 5 de junho de 2012

A moral humana: É inata ou não?

Por Carlos Chagas

Durante séculos e, quem sabe, milênios, se discutiu o fato de haver ou não, nas crianças, o chamado "pecado original". Quando digitadas no Google essas duas palavras o que se vê são centenas de sites, blogs e fóruns com o tema em discussão. Milhares de livros já foram escritos sobre o assunto e a teologia católica ainda tem em seus dogmas essa concepção.

Todavia, com o surgimento do Iluminismo e, com a chegada da era contemporânea, a religião cristã passou a ser combatida veementemente pelos "humanistas de plantão" (adeptos a toda ciência que tem por base a razão humana como ponto de partida da conceituação). E foi neste combate que o cristianismo passou a perder forças em seu discurso, uma vez que o que é interessante agora é aquilo que somente a razão pode explicar. "O que vem de fé é ultrapassado e criado por mentes doentias", um discurso típico de pessoas ditas racionais e inteligentes, dentre as quais podem ser encontradas singularidades como Adolf Hitler.

Desde então falar do assunto tem sido difícil ao meio religioso. Se "os da razão" não aceitam as ideias dos "da fé", serão apenas palavras que entram num ouvido e sai no outro. Entretanto, nestes últimos anos, o que tem sido pesquisado pelos "da razão" coloca em xeque eles próprios em seus discursos que são mais relativos que os muitos discursos religiosos. Mas especificamente no meio ateu o problema emergente é por demais delicado: Pesquisadores (os "da razão") descobriram, após pesquisas avançadas, que em bebês de 15 meses já podem ser constatados indícios de moral e senso de justiça, o que faz nascer a seguinte pergunta: Não seriam a moral e o senso de justiça qualidades inatas em seres humanos?

Assim, se "os da fé" não podem mais contra-argumentar os "da razão", os próprios "da razão" agora precisam discutir tais descobertas. Agora a religião entra novamente no "páreo" para falar do que sempre defendeu: A moral ainda é algo inato no ser humano, coisa extremamente negada pelos militantes ateístas, que fogem do instinto moral como o diabo da cruz.

Entenda então como é o processo:

Pais que sofrem para impedir que seu bebê arranque brinquedos das mãos dos amiguinhos podem não acreditar, mas crianças de apenas 15 meses já parecem ter um senso rudimentar de justiça, afirma um novo estudo. Experimentos feitos com cerca de 50 crianças na Universidade de Washington, em Seattle (Costa Oeste dos EUA), mostraram que os pequenos ficam "chocados" quando presenciam uma divisão desigual de guloseimas.



E, apesar do berreiro que às vezes acontece quando bebês disputam brinquedos, as crianças do estudo, em quase dois terços dos testes, topavam dividir os seus com adultos desconhecidos.

Publicada na revista científica de acesso livre "PLoS One", a pesquisa se junta a uma série de trabalhos recentes que indicam a existência de um instinto moral aguçado nos filhotes da nossa espécie.

Aliás, o estudo atual é o que revela evidências de comportamento "ético" mais cedo no desenvolvimento humano --os trabalhos anteriores só tinham demonstrado isso em meninos e meninas de dois anos de idade. Um resumo do design experimental usado pelos psicólogos Marco Schmidt e Jessica Sommerville, autores do estudo, pode ser visto no infográfico. Sempre no colo de um dos pais, para ficarem relaxados, os bebês primeiro assistiam a vídeos que mostravam a divisão igualitária ou desigual de comida (biscoitos ou leite) entre dois adultos.

Como os talentos linguísticos das crianças dessa idade ainda são limitados, os psicólogos usavam algo mais simples para saber o que os bebês tinham achado dos vídeos: o tempo que eles gastavam olhando para a tela.

Trata-se de uma ferramenta já estabelecida em outros estudos do tipo. Em geral, quanto mais uma situação surpreende os bebês, mais tempo eles ficam olhando para a cena. E, nesse caso, em média, a cena em que a divisão é desigual surpreendeu bem mais os pequenos. Depois, os mesmos bebês podiam escolher entre dois brinquedos, ambos ofertados por um pesquisador que eles já conheciam. O cientista esperava a criança escolher seu brinquedo favorito e, depois, deixava os dois com ela.

Entrava então em cena um outro pesquisador, que a criança ainda não tinha visto. O sujeito perguntava: "Posso pegar um [dos brinquedos]?". A maioria dos bebês dava um dos brinquedos para a pessoa, e um terço deles emprestava até o brinquedo considerado o preferido. Aliás, havia uma correlação: as crianças mais "chocadas" com a divisão injusta do leite ou dos biscoitos eram justamente as que tinham mais tendência a compartilhar seus brinquedos com os estranhos, sugerindo que tendências parecidas explicam os comportamentos. 

Retirado de: Folha de São Paulo [Reinaldo J Lopes, 11 out 11]

Sendo assim, mais uma vez a ciência tropeça no que um dia negou. Agora, conceitos criados pela mesma terão que ser revistos e pedidos de desculpas feitos (será?). Lembro-me de quando tinha 13 anos de idade, quando minha tia havia adquirido um câncer. Na época, cientistas haviam descoberto que no tomate havia substâncias que provocavam o surgimento do câncer, o que fez com que minha tia jamais comprasse o fruto. Anos mais tarde a ciência (contradição?) havia descoberto substâncias que combatiam o câncer. Adivinha em que alimento? No tomate.

Assim, continuamos a caminhada num mundo onde os "da razão" ainda ditam as coisas, sejam estas erradas ou não, ainda são a primeiras a serem consideradas e aplicadas, mesmo que sejam nocivas. Aliás, os que dizem que tal discurso pode ser ou não nocivo são aqueles que ainda são os tachados de "ultrapassados e doentes"*, a saber, os "da fé". 

* Adolf Hitler, Füher da Alemanha na II Guerra Mundial, implantou o Nacional-Socialismo (Nazismo) que apregoava embasamento científico e racional contra tudo que era religioso e da fé, que eram práticas consideradas por ele nocivas e doentes, criadas por seres inferiores, dentre estes, os judeus.

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